O presidente Luiz Inácio Lula da Silva evitou citar os nomes de Raquel Lyra e JHC durante agendas oficiais em Pernambuco e Alagoas, gerando mal-estar entre aliados locais que esperavam um posicionamento claro. O silêncio ocorreu em eventos com forte simbolismo eleitoral, a menos de dois anos da disputa municipal.
A ausência de críticas diretas aos gestores de oposição — a governadora pernambucana, do PSD, e o prefeito de Maceió, do PL — foi lida como um aceno pragmático. Mas a base governista nos dois estados não escondeu a frustração.
O que estava em jogo nas duas agendas
Em Pernambuco, Lula participou da entrega de unidades habitacionais do Minha Casa, Minha Vida no Recife, ao lado de ministros e parlamentares da base. Raquel Lyra, eleita com apoio do bolsonarismo em 2022 e hoje aproximada do centro, não foi mencionada.
Já em Alagoas, o presidente inaugurou trecho da Adutora do Agreste ao lado de JHC, que subiu ao palanque mas não discursou. O prefeito de Maceió é cotado para disputar o governo estadual em 2026 e mantém alinhamento com a direita.
Por que o silêncio incomoda a base
Dirigentes do PT, PCdoB e PV nos dois estados relatam que a expectativa era de um discurso que demarcasse território. A avaliação interna é de que a neutralidade presidencial enfraquece palanques locais e confunde o eleitorado.
- Pernambuco: PT tem pré-candidatos a prefeito em 12 dos 15 maiores municípios
- Alagoas: Federação Brasil da Esperança planeja lançar chapas próprias em 40 cidades
- Prazo: Convenções partidárias ocorrem entre julho e agosto de 2024
Um deputado federal pernambucano resumiu o clima: “Não pedimos ataque, pedimos clareza. O eleitor precisa saber quem está com o projeto nacional”.
O cálculo político por trás da discrição
Assessores do Planalto argumentam que a prioridade é a governabilidade no Congresso. Raquel Lyra controla a bancada federal de Pernambuco — 25 deputados e 3 senadores — e tem articulado votos em pautas econômicas. JHC, por sua vez, mantém diálogo com ministérios-chave para liberação de recursos a Maceió.
Em 2023, os dois estados receberam juntos R$ 4,2 bilhões em emendas parlamentares e convênios federais. O volume supera a média histórica e reforça a tese de que a relação institucional prevalece sobre o palanque.
O precedente de 2022 e o risco de 2024
Na eleição passada, Lula venceu em ambos os estados — 54% em Pernambuco, 58% em Alagoas — mas viu aliados locais derrotados nas disputas estaduais. A desconexão entre voto presidencial e voto local acendeu o alerta para as municipais.
Pesquisa interna do PT, realizada em dezembro, mostra que 62% dos eleitores de Lula no Recife não sabem citar um nome do partido para prefeito. Em Maceió, o índice chega a 58%.
O que observar daqui para frente
Os próximos meses dirão se o silêncio foi tática pontual ou mudança de estratégia. A filiação de Raquel Lyra ao PSD, partido da base de apoio no Congresso, e a manutenção de JHC no PL, de oposição declarada, criam equações diferentes.
Dirigentes nacionais sinalizam que a orientação formal para as municipais sairá em março, após o Carnaval. Até lá, a base nos dois estados tenta transformar o desconforto em pressão organizada — com reuniões agendadas em Brasília nas duas primeiras semanas de fevereiro.
Para o empresário ou investidor que acompanha o cenário regional, o recado é claro: a governabilidade federal não garante alinhamento automático nos palanques locais. O mapa político de 2024 será montado município a município, com ou sem a benção do Planalto.
