Economia

Imposto Seletivo 2027: montadoras às cegas a 3 meses da largada

Fábrica de automóveis com símbolo de interrogação sobre calendário 2027 representando incerteza do Imposto Seletivo
Indústria automotiva aguarda definição de alíquotas do Imposto Seletivo que estreia em 2027.

O Imposto Seletivo sobre automóveis estreia em 1º de janeiro de 2027, mas as alíquotas continuam desconhecidas. A lei que as definirá nem sequer chegou ao Congresso. Para as montadoras, isso significa precificar a linha do ano que vem no escuro.

O prazo legal para publicar a norma é 3 de outubro — véspera do primeiro turno das eleições. O governo ainda não se pronunciou oficialmente sobre o cronograma.

Por que a indústria entrou em modo de espera

Hoje, o IPI Verde cria 2.772 combinações de enquadramento para carros de passeio. Propulsão, eficiência, potência, segurança e reciclabilidade definem a alíquota. A reforma zera o IPI na maior parte dos produtos e lança o Seletivo no lugar.

Sem as novas regras, fabricantes não conseguem:

  • Calcular a tributação real de cada modelo
  • Fechar preços de tabela para 2027
  • Adaptar sistemas de faturamento e homologação

O Ministério da Fazenda confirmou em julho que as alíquotas dependem de proposta legislativa pendente. A Receita Federal admitiu não ter estimativa conclusiva de arrecadação sem a regulamentação.

IPI Verde como ponte: o plano B que ganha força

Fontes do setor indicam que o governo avalia usar o IPI Verde como referência temporária durante 2027. A estrutura já conhecida serviria de base enquanto as regras definitivas são desenhadas.

Ricardo Bastos, presidente da ABVE, vê a solução com bons olhos: “Isso, sendo confirmado, nos dá tranquilidade no curto prazo”. Igor Calvet, da Anfavea, concorda: aplicar novos parâmetros em poucos meses criaria dificuldades operacionais para fabricantes e importadores.

Mas atenção: replicar os critérios atuais não garante carga idêntica. O texto final do Seletivo e a forma de aplicação dos pesos é que ditarão o bolso.

O que muda de verdade nas regras definitivas

A lei complementar já prevê critérios que não existem hoje no IPI Verde. A alíquota será graduada considerando:

  • Pegada de carbono
  • Densidade tecnológica
  • Emissões ao longo do ciclo energético
  • Etapas de fabricação realizadas no Brasil

Bastos defende que a discussão ocorra ao longo de 2027, partindo de uma alíquota de referência com bônus e ônus por desempenho ambiental. O objetivo: veículos mais eficientes, seguros e tecnológicos paguem menos; os defasados e com baixo índice de nacionalização, mais.

Simplificação prometida, complexidade entregue

“A simplificação ainda não existiu”, resume Calvet. Montadoras mantêm grandes equipes e sistemas complexos só para acompanhar a tributação. Se o IPI Verde virar ponte por um ano, 2028 trará nova adaptação — agora com os critérios expandidos do Seletivo.

O efeito cascata atinge a competição. Dois modelos que hoje disputam o mesmo cliente podem se separar no preço final por diferenças de reciclabilidade ou pegada de carbono. Produtos que não concorriam podem se aproximar. A reorganização do portfólio já começou nos bastidores.

O que observar daqui para frente

Três datas marcam o radar: 3 de outubro (limite para publicação da norma), a votação no Congresso e a transição do ICMS para o IBS nos anos seguintes. Cada etapa pode redistribuir custos entre modelos e alterar a atratividade de tecnologias específicas. Quem antecipar cenários e flexibilizar o planejamento de produto leva vantagem na largada de 2027.