Uma análise contundente traça um paralelo inquietante: o risco de o Brasil seguir o caminho venezuelano não viria da esquerda, mas de uma eventual presidência de Flávio Bolsonaro. O argumento central aponta para uma entrega soberana sem precedentes, desenhada não em Brasília, mas em Washington.
A tese quebra a polarização habitual ao sugerir que “bolsonarismo” e “madurismo entreguista” seriam faces da mesma moeda. Mas o que sustenta essa comparação radical e quais as consequências práticas para a economia e a democracia?
A ironia geopolítica: Maduro, Trump e o petróleo
Para entender a tese, é preciso olhar o acordo entre Donald Trump e Nicolás Maduro. Em agosto, a Casa Branca flexibilizou sanções em troca de acesso ao petróleo venezuelano. A oposição local, incluindo o economista Ricardo Hausmann (Harvard), denunciou o pacto: os EUA teriam escolhido “ir para a cama com nossos opressores”.
O detalhe crucial: Marco Rubio, articulador da política externa americana para a região, viu sua credibilidade ruir tanto com a direita venezuelana quanto com o PT brasileiro. Nesse cenário, o autor argumenta que, tirado o anti-imperialismo e o bigode, Maduro se assemelharia a Jair Bolsonaro — ambos dispostos a ceder ativos nacionais aos EUA em troca de sustentação política.
O “verdadeiro” programa econômico: lealdade ao dólar, prejuízo ao real
Esqueça as promessas de ajuste fiscal vendidas na Faria Lima por ex-assessores de Paulo Guedes. Segundo a análise, o plano real de Flávio Bolsonaro foi redigido em inglês e prevê uma subordinação estrutural da economia brasileira aos interesses americanos:
- Compras obrigatórias: Obrigação de adquirir insumos e tecnologia dos EUA, mesmo com a China oferecendo preços menores.
- Vendas direcionadas: Exportações travadas no mercado americano, abrindo mão de compradores chineses que pagam mais.
- Soberania mineral: Necessidade de permissão externa para comercializar minérios estratégicos.
- Fim do Pix e da Embraer: Substituição do sistema de pagamentos instantâneos e aquisição de aeronaves americanas inferiores às nacionais.
Em resumo: setores internacionalmente competitivos passariam a trabalhar para enriquecer a economia americana, não a brasileira.
O comitê de transição e o aval de Rubio
A materialização desse plano não é especulação. O próprio senador Marco Rubio confirmou que Flávio Bolsonaro concordou em criar um comitê de transição pós-eleição para implementar as diretrizes acordadas. A sinalização é clara: a posse seria o gatilho para a execução de um roteiro externo.
Paralelamente, o cientista político Steven Levitsky, coautor de Como as Democracias Morrem, alertou em entrevista recente para o risco real de Trump não reconhecer uma vitória eleitoral de Lula. Esse cenário abriria flancos para novas ofensivas da extrema direita global contra as instituições brasileiras.
Por que nenhum governo eleito aceitaria esse acordo
A lógica é simples: um governo que depende do voto popular não sobrevive entregando o petróleo, os minérios, a tecnologia financeira e a indústria aeronáutica a uma potência estrangeira sem contrapartidas. A comparação com a Venezuela surge justamente aí: Maduro só consegue sustentar o acordo lesivo com Trump porque não depende de legitimidade eleitoral plena.
Se a tese se confirma, um governo Flávio Bolsonaro precisaria de um grau de autoritarismo similar para impor perdas econômicas tão profundas ao eleitorado brasileiro. Trump vê esse autoritarismo como “vantagem”, seja em Caracas ou em Brasília.
O que observar daqui para frente
Para investidores e empresários, o sinal de alerta não é ideológico, mas contratual e regulatório. A promessa de “cortes de gastos” esconde uma reestruturação que beneficia cadeias de valor americanas em detrimento da competitividade brasileira.
Fique atento a três movimentos nos próximos meses: a formalização de acordos bilaterais que restrinjam comércio com a China; propostas legislativas que ataquem a autonomia do Bacen ou o Pix; e a composição de equipes de transição com perfis alinhados ao think tank trumpista. A definição do rumo soberano do país pode estar sendo negociada longe dos holofotes da campanha eleitoral.
