O Nubank colocou na mesa uma proposta que pode redefinir o xadrez global das fintechs: a aquisição do banco digital britânico Monzo por um valor entre 8 e 10 bilhões de libras (até R$ 68,7 bilhões). As conversas estão em estágio inicial, mas a simples existência da negociação sinaliza um movimento agressivo da Nu Holdings para fora das Américas.
O pagamento seria estruturado em dinheiro e ações, segundo fontes próximas ao assunto. Mas a grande pergunta que fica no ar é: por que o Monzo, cortejado há anos para um IPO em Londres, estaria aberto a vender justamente agora?
O salto de valuation que chama a atenção
Os números mostram a magnitude da aposta. Em 2024, uma rodada secundária avaliava o Monzo em 4,5 bilhões de libras (cerca de R$ 31 bilhões). A faixa atual — de 8 a 10 bilhões de libras — representa uma valorização de até 122% em menos de dois anos.
Essa disparada ocorre mesmo com a fintech britânica sendo assessorada por pesos-pesados como Morgan Stanley e Qatalyst Partners. Paralelamente, o Monzo mantém diálogos com fundos de private equity para vender até 15% do capital, além de avaliar uma captação tradicional de venture capital. Em resumo: a empresa tem alternativas, o que fortalece sua posição na mesa de negociação.
O contexto turbulento por trás da decisão
Para entender o momento, é preciso olhar para os bastidores recentes. No ano passado, a saída inesperada do CEO TS Anil desencadeou uma rebelião de investidores de peso, como Accel e Iconiq. Acionistas exigiram a reformulação do conselho de administração e maior representatividade.
Desde fevereiro, a nova CEO Diana Layfield executa uma guinada estratégica clara:
- Encerramento das operações nos Estados Unidos;
- Foco total na expansão europeia (Irlanda e Espanha);
- Diversificação de receita com crédito e novos produtos, como eSIMs.
Os resultados financeiros recentes dão fôlego a essa narrativa: lucro antes de impostos de 87,3 milhões de libras no ano fiscal encerrado em março de 2026, alta de 44% ante o período anterior. A receita saltou 39%, atingindo 1,7 bilhão de libras.
Por que o Nubank quer o Monzo agora
A lógica para o lado brasileiro é a aceleração da expansão internacional. Avaliado em US$ 65 bilhões (R$ 337 bilhões) e com 140 milhões de clientes nas Américas, o Nubank acaba de obter licença bancária nos EUA. Comprar o Monzo — e seus 16 milhões de clientes concentrados no Reino Unido — daria à empresa uma base europeia instantânea, regulatória e tecnológica.
Mas o efeito colateral atinge em cheio a Bolsa de Valores de Londres. A praça financeira britânica via no Monzo o “pôster boy” para uma nova geração de IPOs de tecnologia. Perder a fintech para um comprador estrangeiro é um revés simbólico e prático para as ambições do mercado de capitais local.
O elefante na sala: a sombra do Revolut
Não dá para analisar o Monzo sem citar seu grande rival. O Revolut ostenta 80 milhões de clientes e presença em mais de 40 países. A fintech britânica ainda opera majoritariamente no mercado doméstico, o que limita seu teto de crescimento orgânico.
Uma venda ao Nubank resolveria, de uma só vez, a necessidade de capital do Monzo, a pressão por governança dos investidores e a escala geográfica que a empresa sozinha dificilmente alcançaria no curto prazo.
O que observar nas próximas semanas
O desfecho não é certo. A estrutura “dinheiro + ações” expõe os acionistas do Monzo à volatilidade dos papéis da Nu Holdings em Nova York. Além disso, aprovações regulatórias no Reino Unido e no Brasil adicionam camadas de complexidade e tempo.
Para o investidor e o executivo que acompanham o setor, três variáveis merecem monitoramento rigoroso: a reação dos fundos minoritários do Monzo à oferta, a capacidade de integração tecnológica entre as plataformas e o sinal que esse movimento envia para outros “unicórnios” europeus sem caminho claro para o IPO. Se o negócio fechar, a tese de “consolidação global via M&A” ganha força definitiva sobre a de “crescimento orgânico até o IPO”.
