A Febraban endossou o Desenrola 3.0 com uma ressalva estratégica: a adesão é voluntária e respeita a lógica de mercado. O programa, anunciado na sexta-feira (25), mira um estoque de dívidas antigas que travam o crédito há anos.
Mas o alívio real para as famílias — e a limpeza dos balanços bancários — depende de um leilão reverso marcado para novembro. É ali que o desconto real será definido.
Por que a entidade bancária aprovou o modelo
A federação destacou três pilares que diferenciam esta versão de tentativas anteriores. Primeiro, ninguém é obrigado a vender carteira podre. Segundo, as regras não ferem a precificação de risco. Terceiro, o foco exclusivo em dívidas com dois a quatro anos e meio de atraso ataca o “osso” da inadimplência crônica.
Na prática, são débitos que os bancos já deram como perdidos contabilmente. Vender esse estoque com desconto agressivo vira receita imediata e libera capital para novos empréstimos.
Os números que desenham o tamanho da aposta
O governo reservou até R$ 15 bilhões para comprar uma dívida de face de R$ 150 bilhões. A expectativa oficial é renegociar efetivamente R$ 75 bilhões, assumindo adesão parcial dos dois lados.
- Orçamento: R$ 15 bi (recursos do Tesouro)
- Esto-alvo: até R$ 150 bi em valor nominal
- Meta de renegociação: R$ 75 bi
- Teto de desconto no leilão: 90%
A conta fecha se os bancos aceitarem vender a centavos por real. O leilão de novembro premiará quem oferecer o maior abatimento.
Quem pode — e quem não pode — entrar na fila
O recorte é cirúrgico. Valem dívidas de cartão de crédito (rotativo e parcelado) e empréstimos pessoais sem garantia. Ficam de fora: crédito consignado, financiamento imobiliário, veículos e dívidas com menos de dois anos de atraso.
A data de corte para contagem do prazo de inadimplência é 25 de setembro de 2026. Ou seja, apenas débitos vencidos entre março de 2022 e setembro de 2024 entram na régua.
O mecanismo do leilão e o risco de adesão baixa
Bancos ofertam lotes de dívidas com o desconto que aceitam. O governo compra dos maiores descontos até esgotar os R$ 15 bi. Se as ofertas forem conservadoras — digamos, 50% de desconto médio —, o volume comprado cai drasticamente.
Mais relevante: o consumidor final só sente o efeito se o banco vendedor repassar o desconto na renegociação. O programa prevê essa transferência, mas a operacionalização dependerá de cada instituição.
O que observar daqui para frente
Três variáveis ditarão o sucesso real nos próximos 60 dias: a disposição dos grandes bancos em ofertar descontos próximos ao teto de 90%; a capacidade operacional da Caixa e do Banco do Brasil em estruturar os lotes; e a resposta do consumidor, que precisará procurar os canais oficiais para fechar o acordo. O primeiro termômetro sai em novembro, com o resultado do leilão.
