Cultura

O segredo do retorno de Tati: maternidade, burnout e a volta por cima em 2027

Tatiana Weston-Webb surfando onda potente, expressão focada, prancha amarela, água cristalina
Tati Weston-Webb confirma volta ao CT 2027 após superar burnout e abraçar a maternidade.

Tatiana Weston-Webb confirmou seu retorno ao Circuito Mundial de Surfe (CT) para a temporada de 2027, mas a notícia carrega um peso muito maior que uma simples escalação: a atleta revela ter reencontrado o prazer de competir após enfrentar burnout e viver a maternidade. A vice-campeã mundial e medalhista olímpica em Paris-2024 admite que chegou a temer não querer mais vestir a lycra de competição.

A pausa iniciada em 2025, inicialmente planejada para proteger a saúde mental, descortinou um cenário inesperado: a gravidez de Bia Rose, sua primeira filha com o também surfista Jessé Mendes. O que era uma interrupção virou uma reinvenção completa de identidade.

Quando “virar mãe” significa deixar de ser atleta

A transição não foi romântica nem linear. Weston-Webb descreve o período pós-parto como uma reconstrução física brutal, onde cardio, massa muscular e a “essência do atleta” se dissiparam.

“O físico durante a gravidez é o que você mais perde. Você perde o cardio, você perde os músculos… Eu virei mãe e não atleta.”

Ela retomou treinos físicos três vezes por semana, mas admite uma verdade incômoda para qualquer alta performance: o corpo de antes pode não voltar integralmente. A aceitação dessa nova fisiologia tornou-se parte do processo de cura, substituindo a cobrança por um padrão inalcançável por uma rotina de adaptação constante.

O teste de fogo em Saquarema

O termômetro real da volta não foi um treino, mas a etapa do CT em Saquarema, em junho de 2024, onde competiu como convidada. O medo central não era o resultado, mas a sensação: e se eu não gostar mais disso?

A resposta veio na água. A energia da disputa, a tensão da bateria, o reencontro com as adversárias — tudo gerou uma empolgação que ela julgava extinta. A maternidade, paradoxalmente, funcionou como antídoto para a ansiedade de controle que alimentava o burnout anterior.

  • Liçao absorvida: Aceitar o incontrolável (ondas, notas, sono do bebê) reduziu a pressão interna.
  • Resultado prático: Competir voltou a ser “saudável e muito bom”, nas palavras da atleta.
  • Mudança de eixo: A carreira deixou de ser o único caminho e passou a ser um dos caminhos.

O que muda na equação para 2027

A WSL já garantiu o convite (wildcard) para a temporada completa. A diferença estratégica agora é a logística: Bia Rose fará parte da comitiva. A atleta projeta o primeiro ano da filha como dedicado integralmente à maternidade, com a competição entrando como uma camada extra — e não mais o alicerce exclusivo da existência.

Essa nova arquitetura mental aproxima Weston-Webb de um perfil cada vez mais comum no esporte de alto rendimento: o atleta-empresário da própria carreira, que gerencia ciclos, energia e ativos (físicos e mentais) com visão de longo prazo, não apenas sobrevivência na próxima bateria.

O que observar daqui para frente

O caso funciona como estudo de caso real sobre recuperação de alta performance após pausa prolongada por saúde mental e maternidade. Três variáveis definirão o tamanho do sucesso esportivo em 2027: a velocidade de readaptação neuromuscular ao surfe de CT, a gestão de sono e recuperação com uma criança pequena em viagem constante e a manutenção desse “novo prazer” sob a pressão por resultados num ciclo olímpico (Los Angeles 2028).

Para o mercado e para gestores de carreira, o recado é claro: pausas estratégicas não são fim de linha; podem ser a única forma de estender a vida útil de um ativo humano de elite.