Economia

Picanha sobe 7,8% no governo Lula, mas era 4x mais no anterior: o que explica a diferença

Picanha crua em bandeja com etiqueta de preço R$ 50,49/kg, simbolizando alta de 7,8% no governo Lula
Picanha a R$ 50,49/kg em São Paulo: alta de 7,8% em 44 meses, contra 33,4% no governo anterior

A picanha acumulou alta de 7,8% nos primeiros 44 meses da gestão Lula 3 — um ritmo quatro vezes menor que os 33,4% registrados no período equivalente do governo anterior. O dado, extraído do IPCA pelo economista Fábio Romão (4intelligence), revela uma dinâmica de oferta que poucos discutem nos palanques.

Mas o alívio no índice esconde uma realidade incômoda: o quilo dos cortes de primeira custava R$ 50,49 em São Paulo no último agosto, ante R$ 23,61 pré-pandemia. A inflação desacelerou, porém partiu de uma base já elevada.

O ciclo do boi que ninguém comenta

O Brasil abateu 42,9 milhões de cabeças em 2025, recorde histórico da série do IBGE iniciada em 1997. O volume superou em 8,2% o ano anterior e colocou o país, pela primeira vez, à frente dos Estados Unidos na produção total de carne bovina.

Esse salto de oferta não foi obra de decreto. Veio de um ciclo biológico:

  • Retenção de fêmeas para reprodução a partir de 2022
  • Expansão do rebanho em resposta a preços altos
  • Abate recorde em 2025 — pressionando preços para baixo no atacado

Fernando Iglesias (Safras & Mercado) resume: “O que prepondera são questões de oferta”. Choques externos — pandemia, guerra na Ucrânia, dólar alto, clima adverso — explicam a disparada do mandato anterior. O alívio atual reflete o lado da produção, não da caneta.

O consumidor não sente a desaceleração

A alimentação no domicílio subiu 60,8% desde abril de 2020, contra 42,7% do IPCA geral. No recorte Lula 3, a alta foi de 12,9% — bem abaixo dos 54,2% do período equivalente anterior. Mas o bolso reage ao nível, não à taxa.

O endividamento recorde das famílias atua como freio natural. Iglesias observa migração para proteínas mais baratas: frango, suínos, ovos, embutidos. O consumo per capita de bovina, que caiu a 24,94 kg em 2021, recuperou para ~30,7 kg em 2024-25, mas projeta recuo a 28,08 kg em 2026.

A virada do ciclo chega em 2027

A retenção de fêmeas nos rebanhos — sinal de reconstrução — reduzirá abates nos próximos trimestres. Cortes do traseiro (picanha, alcatra, maminha, filé) tendem a manter patamares elevados. Some-se o risco El Niño a partir do fim de 2026: chuvas irregulares podem cortar pastagens e ração, repassando custo ao varejo.

Paralelamente, a cerveja — outro símbolo da promessa de 2022 — acumula 19,5% no período Lula 3, praticamente idêntico aos 19,2% do governo anterior. Bebida e churrasco seguem indexados a câmbio, commodities e tributação, não a discursos.

O que observar daqui para frente

Três variáveis ditam o preço do churrasco nos próximos 18 meses: (1) ritmo de desova de fêmeas no abate, (2) intensidade do El Niño sobre pastagens e milho, (3) poder de repasse da indústria num cenário de endividamento familiar ainda pressionado. O ciclo pecuário não vota — mas cobra a conta no caixa do varejo e no orçamento doméstico.