O Brasil investe em laboratórios e dispositivos, mas um estudo nacional revela que o gargalo real do ensino STEM está na formação docente contínua — e não na infraestrutura. A conclusão vem do Panorama da Educação STEM no Brasil, levantamento de 170 páginas que mapeou seis capitais. O dado que chama atenção: sem professor preparado, impressora 3D vira enfeite.
Para empresários e gestores de educação, a mensagem é direta: o retorno sobre investimento em tecnologia educacional depende de uma variável humana negligenciada. A pesquisadora Sandra Unbehaum, coordenadora do estudo, resume: “Não basta computador nas escolas. É preciso investir na formação de profissionais de um modo profundo e constante”.
Por que a formação atual falha com o professor
O estudo expõe uma realidade brutal: muitos docentes atuam em múltiplas escolas, com turmas excessivas e zero tempo protegido para capacitação. Treinamentos pontuais ou apenas a distância não resolvem. A pesquisadora defende que a formação seja tratada como “parte do trabalho”, inserida na jornada, com encontros presenciais para troca de prática.
Em Manaus, a falta de licenciados específicos obriga professores de educação física a lecionar ciências. Em Curitiba, a alta rotatividade nos anos finais quebra a continuidade de projetos coletivos. São sintomas de um sistema que cobra inovação, mas não dá condições para ela acontecer.
Infraestrutura desigual: o risco invisível
O relatório alerta: sem acesso igualitário a internet, equipamentos e suporte técnico, a tecnologia amplia abismos em vez de reduzi-los. “A falta de acesso adequado vai contribuir para uma desigualdade educacional”, afirma Unbehaum. Para quem investe em edtechs ou políticas públicas, o recado é claro: escalar hardware sem garantir conectividade e manutenção é jogar dinheiro fora.
Seis capitais, seis lições práticas
O levantamento mapeou boas práticas que podem ser replicadas ou escaladas:
- Manaus: jogos “desplugados” para ensinar lógica de programação sem dispositivos + centros de tecnologia com satélite para escolas ribeirinhas.
- Belém: óculos de realidade virtual de baixo custo feitos com fibra de miriti, unindo cultura local e geometria.
- João Pessoa: imersões tecnológicas intensivas para professores integrarem ferramentas ao plano de aula.
- São Paulo: formadores multiplicadores nas diretorias de ensino + parceria com Universidade de Columbia para aprendizagem construcionista.
- Curitiba: Faróis do Saber transformados em makerspaces com impressoras 3D e cortadoras a laser + Farol Móvel levando recursos às salas.
- Rio de Janeiro: 317 Ginásios Educacionais Tecnológicos (GETs) atendendo 150 mil alunos, com laboratórios maker interdisciplinares (STEAM).
O caso Rio: quando a estrutura encontra metodologia
Nos GETs cariocas, a sigla virou STEAM (incluindo artes). O “colaboratório” reúne impressoras 3D, robótica, realidade virtual e corte a laser. A professora Vanini Bernardes conta que alunos resolvem problemas reais de forma colaborativa. “Cada estudante desenvolve potencialidades que ficavam ocultas em modelos tradicionais”, diz.
Manuela, 15 anos, aluna do 9º ano, resume o ganho: “Não ficamos só na teoria. Transformamos ideias em algo que visualizamos e desenvolvemos”. O secretário Hugo Nepomuceno destaca impacto no território: “Aproximar tecnologia do cotidiano das famílias fortalece a relação escola-comunidade”.
O que observar daqui para frente
Três movimentos merecem radar de investidores e formuladores de política: (1) a transição de formações eventuais para programas contínuos remunerados dentro da jornada; (2) a padronização de suporte técnico nas escolas — sem ele, equipamentos param em semanas; (3) a expansão de modelos interdisciplinares tipo GET/STEAM para além de capitais. O relatório sinaliza: o próximo salto não é comprar mais máquinas. É garantir quem saiba usá-las para ensinar.
