Três dos principais presidenciáveis colocaram na mesa, nesta sexta-feira (25), propostas que mexem diretamente com setores bilionários: apostas esportivas, agronegócio e a estrutura de tributos sobre consumo. O recado uníssono contra as bets e o aceno ao seguro rural climático desenham um cenário de risco regulatório que o mercado não pode ignorar.
O cerco às apostas esportivas ganhou peso de promessa de campanha
Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi direto em ato no Recife: “Eu vou acabar com as bets”. Horas depois, jantou com empresários em São Paulo. A fala ecoa a de Augusto Cury (Avante), que em Boa Viagem (PE) defendeu taxação pesada ou extinção do setor. Flávio Bolsonaro (PL), no Rio, prometeu proibir “jogo do Tigrinho e cassino online” se eleito.
Cury trouxe o dado que expõe a distorção tributária atual: as bets pagam 12% de alíquota efetiva, enquanto alimentos chegam a 18%, remédios a 32% e energia também a 32%. A conta não fecha para quem olha a arrecadação e a saúde fiscal.
Agro pede socorro estrutural e Caiado endossa
Em Goiás, Ronaldo Caiado (PSD) fez carretas em Quirinópolis, Itumbiara e Catalão e reuniu apoiadores em Goiânia. A pauta: renegociação de dívidas do setor e seguro rural robusto para cobrir eventos climáticos extremos, citando nominalmente o El Niño.
“Como presidente eu saberei propor uma renegociação capaz de resgatar o setor, depois garantir um seguro rural para que não fique nas costas do produtor os riscos”, afirmou.
O movimento sinaliza que, independentemente do vencedor, a conta climática do agro deve migrar para o orçamento federal ou para prêmios subsidiados — custo que recai sobre o contribuinte ou o prêmio de risco do crédito rural.
Outros nomes, agendas vazias ou focos laterais
- Romeu Zema (Novo): interior de Minas, rádios e padarias — sem anúncios econômicos relevantes.
- Hertz Dias (PSTU): Belo Horizonte, defesa do piso salarial da educação.
- Renan Santos (Missão): comícios em Franca, Uberaba e Uberlândia.
- Edmilson Costa (PCB): atos no Rio com pauta trabalhista e internacional.
- Leonardo Avalanche, Samara Martins, Wilson Grassi, Clariana Barão: sem agenda pública divulgada.
- Rui Costa Pimenta (PCO): entrevistas em TV e YouTube.
O que separa discurso de viabilidade
Proibir bets exige lei complementar, regulação do Banco Central e enfrentamento de lobbies poderosos — sem falar na compensação fiscal da arrecadação perdida. Taxar em patamar equiparado a “bens de pecado” (tabaco, bebidas) é tecnicamente mais factível, mas esbarra na definição legal de “jogo de azar” vs. “habilidade”.
No agro, o seguro rural universalizado demanda subsídio bilionário anual e modelagem atuarial que hoje não existe para eventos de cauda longa. A renegociação de dívidas, por sua vez, pressiona o Tesouro e os bancos públicos.
O que observar nas próximas semanas
1. Detalhamento dos programas de governo: até 15 de agosto, todos devem registrar propostas no TSE. Lá estará a letra miúda sobre alíquotas, bases de cálculo e fontes de custeio.
2. Reação do Congresso: a Frente Parlamentar do Agronegócio e a bancada das bets já se articulam. O ritmo de tramitação dirá se há espaço para medidas duras ou apenas sinalização.
3. Impacto no crédito: bancos já precificam risco regulatório em carteiras de agronegócio e meios de pagamento ligados a apostas. Spreads tendem a subir se a retórica endurecer.
O mercado gosta de previsibilidade. A sexta-feira (25) mostrou que, no front regulatório, a única certeza é a de que o tabuleiro vai mudar — resta saber quais peças caem e quais ficam de pé.
