Três dos principais nomes na corrida ao Planalto defenderam, no mesmo dia, medidas drásticas contra o setor de apostas online — enquanto um governador-candidato colocou o seguro climático rural no centro do palanque. A sexta-feira (25) expôs fissuras regulatórias que podem redesenhar receitas bilionárias já no primeiro ano do próximo mandato.
O movimento não foi coordenado, mas o sinal é uníssono: a farra tributária das bets tem data para acabar. A dúvida é se o próximo governo proíbe, taxa pesado ou cria um modelo híbrido.
O consenso improvável contra as apostas
Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi o mais direto em ato no Recife: “Eu vou acabar com as bets”. Horas depois, jantava com empresários em São Paulo — o mesmo público que, nos bastidores, calcula o impacto de uma extinção pura e simples sobre patrocínios esportivos, mídia e arrecadação.
Augusto Cury (Avante), em Boa Viagem, trouxe números que expõem a assimetria atual: “As bets são taxadas em 12%, os alimentos em 18%, remédios e energia em 32%”. Sua proposta: alíquota “concreta, grande” ou extinção.
Flávio Bolsonaro (PL), no Rio, foi além: prometeu proibir “o jogo do Tigrinho e o cassino online” no primeiro dia de governo. A convergência entre PT, centro e direita radical sugere que, independentemente do vencedor, o marco regulatório de 2023 será revisto.
Agro: dívida, clima e a conta do El Niño
Ronaldo Caiado (PSD) transformou a caravana goiana em palanque técnico. Em Quirinópolis, Itumbiara e Catalão, defendeu dois pilares: renegociação estruturada do passivo rural e seguro estatal para eventos climáticos extremos.
“Não pode ficar nas costas do produtor o risco de um El Niño de proporções maiores”, afirmou. A fala mira a safra 2024/25, já precificada com prêmios de seguro 40% acima da média histórica, segundo dados da Susep.
Para o investidor, a proposta sinaliza dois vetores: possível alongamento de perfis de dívida do BNDES e pressão por subsídio direto ao prêmio de seguro — item que, se aprovado, adicionaria R$ 8 a 12 bi anuais ao Orçamento.
Outros vetores de atenção
- Educação e piso salarial: Hertz Dias (PSTU) cobrou cumprimento integral da lei do piso em Minas — pressão que chega aos municípios e, por tabela, ao Fundeb.
- Segurança como ativo: Flávio Bolsonaro vinculou polícia a “devolver as ruas ao povo”, acenando com federalização de recursos para PMs — tema que mexe no Fundo Nacional de Segurança Pública.
- Ausências estratégicas: Leonardo Avalanche, Samara Martins, Wilson Grassi e Clariana Barão não divulgaram agenda. Em campanha de segundo turno, silêncio costuma ser tático.
O que o mercado deve monitorar daqui para frente
A semana que vem traz o primeiro debate televisionado entre os cinco melhores colocados nas pesquisas. Até lá, três variáveis definem precificação de risco político:
- Detalhamento da proposta de tributação das bets — alíquota, base de cálculo e transição.
- Posicionamento do Banco Central sobre eventual impacto da proibição/taxação no câmbio e na arrecadação.
- Sinalização do Congresso: a Frente Parlamentar do Agronegócio já articula emenda para blindar o seguro rural de contingenciamento.
Quem lê apenas manchetes vê “campanha de rua”. Quem acompanha a agenda econômica enxerga a redação do próximo Plano Plurianual sendo escrita em praças, padarias e jantares fechados. Anote os nomes, as cifras e, sobretudo, as omissões.
