Economia

Milei entrega superávit e inflação em queda, mas conta chega para quem produz e consome

Javier Milei discursa com gráficos de superávit fiscal e inflação em queda, enquanto população argentina enfrenta pobreza nas ruas
Milei comemora superávit de 1,8% do PIB e inflação abaixo de 3%, mas pobreza supera 50% na Argentina.

A Argentina fechou 2024 com superávit fiscal primário de 1,8% do PIB e inflação mensal abaixo de 3% pela primeira vez em anos. O custo: recessão de 3,5%, consumo interno em colapso e pobreza acima de 50%.

Os números agradam ao FMI e aos mercados. O risco-país caiu para 600 pontos e o dólar blue estabilizou na casa dos 1.200 pesos. Mas nas ruas de Buenos Aires, Rosário e Córdoba, a sensação é de empobrecimento acelerado.

O ajuste que funcionou no papel

O governo cortou subsídios de energia e transporte, reduziu transferências às províncias e congelou obras públicas. Em dezembro, o Estado gastou 30% menos em termos reais que um ano antes. A máquina encolheu: 35 mil servidores demitidos, ministérios fundidos, secretarias extintas.

Resultado: superávit financeiro de 0,3% do PIB em 2024 — o primeiro desde 2010. O Banco Central comprou US$ 20 bilhões no mercado de câmbio e recompose reservas líquidas, ainda negativas em US$ 5 bilhões.

Quem pagou a conta

A construção civil perdeu 180 mil postos de trabalho em 12 meses. A indústria recuou 14% no acumulado do ano. Comércio varejista teve a pior queda desde 2002: -12,7%.

  • Salário real médio caiu 18% entre novembro de 2023 e novembro de 2024
  • Jubilaciones (aposentadorias) perderam 25% de poder de compra
  • Pobreza saltou de 41% para 52,9% no primeiro semestre
  • Indigência dobrou: 18% dos argentinos não cobrem a cesta básica alimentar

O consumo de leite, carne e medicamentos recuou a níveis de 2001. Farmácias relatam queda de 40% na venda de remédios crônicos; muitos idosos racionam doses.

O setor que sorri — e o que trava

O agro exportou US$ 58 bilhões em 2024, recorde histórico. Vaca Muerta bateu produção de petróleo e gás. Mineração de lítio atraiu US$ 3,2 bilhões em anúncios de investimento. São ilhas de dinamismo num mar de estagnação.

Mas o crédito ao setor privado encolheu 45% em termos reais. Taxas reais positivas (acima da inflação) travam capital de giro. Pequenas empresas não renovam estoques; médias adiam expansão. O “cepo” cambial — restrição à compra de dólares — segue vigente, com brechas para exportadores.

O que o FMI quer agora

O novo acordo de US$ 20 bilhões, em negociação, exige unificação cambial até meados de 2025 e fim do imposto PAIS (que encarece importações em 17,5%). O governo resiste: abrir o câmbio agora pode disparar o dólar e reacender a inflação.

Caputo sinaliza que a saída será gradual, condicionada a reservas líquidas positivas e inflação núcleo estável. O mercado precifica desvalorização de 20% no oficial até dezembro.

Cenários para 2025: recuperação em “V” ou “L” alongado?

O governo projeta crescimento de 5% puxado por agro, energia e mineração. Consultoras privadas veem 2,5% a 3% — recuperação assimétrica, com indústria e comércio patinando.

O gatilho decisivo é a safra 2024/25: La Niña ameaça rendimentos de soja e milho. Se a colheita frustrar, faltam dólares para sustentar o câmbio e o superávit.

O que observar nas próximas semanas

Três sinais dirão se o modelo segura ou racha: (1) evolução dos salários reais — se pararem de cair, o consumo reage; (2) taxa de juros em pesos — se o BC baixar a referência de 32% ao ano, o crédito volta; (3) mobilização social — greves de transportes e piquetes nas refinarias já testam a governabilidade.

Para o investidor, a aposta segue no carry trade em pesos (retorno de 40% ao ano em dólares) enquanto o câmbio oficial não mexer. Para o empresário que produz no mercado interno, a equação continua negativa: custo dólar alto, demanda em baixa, crédito caro.

O milagre macroeconômico existe nos relatórios. Na economia real, a conta ainda está aberta.