O complexo do Pecém, no Ceará, deixou de ser promessa para virar vitrine do que o mundo verá daqui a cinco anos. A avaliação é de Itamar Lessa, diretor de comercialização da Casa dos Ventos, que apresentou o caso durante o ProEnergia Summit 2026, em Fortaleza.
O executivo foi direto: o que acontece hoje no porto cearense antecipa tendências globais em até sete anos. Data centers saindo do papel, hidrogênio verde para exportação de amônia e contratos de longo prazo com big techs já são realidade por lá.
O contrato que sinaliza a nova rota
A Casa dos Ventos foi uma das idealizadoras do data center do TikTok no estado. A participação acionária foi vendida para a Omnia, mas a empresa cearense manteve o papel de fornecedora exclusiva de energia renovável do empreendimento.
Esse modelo — geração limpa dedicada a infraestrutura digital de alta intensidade — replica o que grandes players buscam em mercados maduros. A diferença: no Pecém, o custo da energia e a disponibilidade de vento e sol tornam a equação mais competitiva.
Geopolítica empurra o mundo para o Nordeste
O cenário mudou de figura após 28 de fevereiro. Nessa data, Estados Unidos e Israel atacaram o Irã, levando ao fechamento do Estreito de Ormuz. Por ali passa cerca de 20% do petróleo mundial.
Data centers instalados no Oriente Médio dependem de projetos de geração que cruzam essa rota. Com o estrangulamento logístico, a segurança energética virou critério decisivo de localização. O Pecém, longe de zonas de conflito e com matriz 100% renovável, entrou no radar de fundos e corporações globais.
Por que o Ceará ganhou a dianteira
- Recursos naturais: vento consistente e irradiação solar entre as melhores do planeta
- Infraestrutura portuária: Pecém já opera como hub de exportação e importação de cargas pesadas
- Capital humano: universidades e centros de pesquisa formam engenheiros especializados em renováveis
- Marco regulatório: estado avançou em licenciamento e incentivos para hidrogênio verde
Lessa resume: “Essa capacidade intelectual do cearense, mas do brasileiro de forma geral, precisamos capitalizar. É o momento de transformarmos o Pecém não apenas no hub de carga, mas no hub de desenvolvimento de tecnologias.”
O que está no pipeline até 2027
A Casa dos Ventos deve formalizar aporte de US$ 5 bilhões em hidrogênio verde no Ceará até 2027. Paralelamente, a Diamante Energia prepara participação em leilão de baterias com projetos de até 300 MW na região.
Esses movimentos indicam que a transição no Pecém não se limita à geração. Armazenamento, derivados verdes e integração com a indústria pesada compõem o próximo degrau.
O que observar daqui para frente
Três variáveis definirão se o “laboratório” vira referência permanente: a velocidade de licenciamento dos projetos de H2V, a capacidade de o porto escoar amônia e derivados em escala, e a manutenção de contratos de compra de energia (PPAs) indexados a dólar para garantir previsibilidade aos investidores. Quem acompanha o setor sabe: o próximo leilão de transmissão e a definição do marco legal do hidrogênio verde no Congresso serão os termômetros reais.
