Cinco candidatos ao Senado por Santa Catarina subiram ao palco da NSC TV na noite de sexta-feira (25) para o único debate televisionado da disputa. O confronto durou cerca de duas horas e expôs divergências profundas sobre economia, democracia e o papel do Estado — temas que afetam diretamente o ambiente de negócios no estado.
O formato obrigou respostas curtas: um minuto para pergunta, um minuto e meio para resposta, mais réplica e tréplica de um minuto cada. Sem tempo para rodeios, os candidatos precisaram ir direto ao ponto. Para o eleitor atento, foi a chance mais clara de comparar propostas lado a lado.
Quem estava no palco — e quem ficou de fora
A legislação eleitoral permitiu a participação apenas de candidatos cujos partidos ou coligações têm pelo menos cinco parlamentares no Congresso. Dos sete nomes aptos, cinco compareceram:
- Afrânio Boppré (PSOL)
- Décio Lima (PT)
- Esperidião Amin (PP)
- Jeferson Rocha (PRD)
- Lunelli (MDB)
Dois candidatos elegíveis não participaram. A ausência reduz o leque de vozes e concentra o debate nos cinco que aceitaram o confronto direto — o que, para o eleitor, simplifica a comparação, mas também limita a diversidade de propostas.
O momento mais tenso da noite
Jeferson Rocha (PRD) chegou ao estúdio antecipando uma “informação importante” que seria apurada pelo Poder Judiciário e que, segundo ele, poderia “decidir aqueles que estão em dúvida”. A promessa de revelação criou expectativa imediata. Durante o primeiro bloco, Rocha usou sua pergunta de tema livre para abordar o assunto, mirando um adversário direto. A troca elevou a temperatura do debate e forçou os demais candidatos a se posicionarem.
O episódio ilustra uma dinâmica recorrente: em debates curtos, quem controla a pauta nas perguntas de tema livre dita o ritmo da discussão. Rocha tentou assumir esse papel. Se funcionou eleitoralmente, só as urnas dirão.
Economia e gestão: o que cada lado defendeu
Esperidião Amin (PP), único senador em exercício entre os participantes, usou a experiência de mandato como credencial. Defendeu continuidade em projetos de infraestrutura e desburocratização, argumentando que “Santa Catarina merece quem já provou que entrega”.
Lunelli (MDB), ex-prefeito de Jaraguá do Sul, enfatizou gestão municipal como laboratório para o Senado. Citou indicadores de desenvolvimento da cidade que administrou e propôs replicar o modelo em escala estadual, com foco em atração de investimentos e qualificação de mão de obra.
Décio Lima (PT) e Afrânio Boppré (PSOL) alinharam discursos na defesa de políticas de distribuição de renda, fortalecimento de estatais e revisão de marcos regulatórios que, segundo eles, favorecem grandes grupos em detrimento de pequenos negócios. A diferença de tom ficou por conta da ênfase: Lima apelou a valores humanistas; Boppré, à clareza ideológica.
Regras do jogo: por que o formato importa
A estrutura em três blocos moldou a estratégia de cada campanha:
- Bloco 1: tema livre + tema sorteado — espaço para golpes de abertura e defesa de bandeiras prioritárias.
- Bloco 2: apenas tema livre — momento de aprofundar ataques ou consolidar narrativas.
- Bloco 3: tema sorteado + considerações finais (1 min cada) — última chance de fixar a mensagem no eleitor.
O sorteio dos temas determinados introduziu imprevisibilidade. Candidatos preparados apenas para seus “cavalos de batalha” precisaram improvisar. Quem demonstrou domínio transversal de assuntos — saúde, segurança, educação, meio ambiente — saiu fortalecido.
O que isso muda para o cenário catarinense
Santa Catarina elege um senador em 2026 para vaga de Dário Berger (PSB), que não disputa reeleição. O estado tem histórico de votos conservadores, mas também elegeu nomes de centro-esquerda em pleitos recentes. O debate mostrou que a polarização nacional — Lula versus Bolsonaro — ainda estrutura o discurso local, mas questões estaduais (portos, BR-101, incentivos fiscais, código florestal) forçaram os candidatos a descer do palanque ideológico.
Para o setor produtivo, o sinal mais relevante foi a convergência inesperada: todos defenderam, em maior ou menor grau, a modernização logística do estado e a simplificação tributária. A divergência está no como — via mercado, via Estado ou via parcerias público-privadas.
O que observar nas próximas semanas
O debate foi o último grande evento televisionado antes do primeiro turno (2 de outubro). Agora, a campanha migra para redes sociais, sabatinas setoriais e corpo a corpo nos municípios. Três variáveis merecem atenção:
- Desdobramento judicial da denúncia antecipada por Jeferson Rocha — se confirmada, pode alterar intenções de voto em curto prazo.
- Pesquisas qualitativas encomendadas por campanhas para medir o impacto real do debate além das bolhas digitais.
- Alianças de segundo turno — com cinco nomes competitivos, a fragmentação aumenta a chance de segundo turno; quem dialoga com eleitores dos eliminados leva vantagem.
O eleitor catarinense tem agora pouco mais de uma semana para processar o que viu, cruzar com o histórico de cada nome e decidir. O debate cumpriu seu papel: tirou as propostas do script de marketing e colocou no teste de pressão. O resto é com a urna.
