O governo federal anunciou nesta sexta-feira (25) um pacote de medidas para frear as apostas online, e a reação imediata do varejo e da construção civil foi de alívio misturado a desconfiança. O setor produtivo comemora o freio na sangria do consumo, mas questiona o timing eleitoral da decisão. A verdadeira conta, no entanto, chega agora para quem empreende.
O choque nos números da construção e do crédito imobiliário
O dado mais contundente veio da Abrainc (associação das incorporadoras). Um estudo interno revela que o endividamento de quem aposta é 8,7 pontos percentuais maior que o da população geral. Na prática, isso coloca o sonho da casa própria fora de alcance para aproximadamente 3,45 milhões de famílias, majoritariamente de baixa renda.
Com a renda comprometida em plataformas digitais, a capacidade de poupança para entrada e a elegibilidade para financiamento desabam. Para o mercado imobiliário, não é apenas uma questão social: é uma fatia concreta de demanda que evapora antes mesmo de chegar ao estande de vendas.
Varejo: da perda de faturamento à rotatividade de funcionários
A CNC (Confederação Nacional do Comércio) resume o mecanismo: ao drenar recursos das apostas, sobra dinheiro para quitar dívidas, comprar essenciais e girar a economia real. Mas a entidade avisa: juros altos ainda travam a recuperação plena do consumo.
Sandra Takata, do Instituto Mulheres do Varejo, trouxe um relato vindo direto do chão de fábrica e do RH: trabalhadores pedindo demissão para acessar FGTS e pagar dívidas de bets. “Quando o dinheiro da casa vai para o jogo, falta comida e roupa. O varejo sente no caixa e na folha de pagamento”, afirma.
O elefante na sala: insegurança jurídica e o “quem paga a conta”
Se o mérito da restrição é amplamente aceito, o método assusta. A CACB e a Abrasel (bares e restaurantes) não pouparam adjetivos: “oportunismo”, “tardio”, “eleitoreiro”. O argumento central é a quebra de previsibilidade regulatória.
- As bets foram legalizadas e licenciadas pelo atual governo;
- Empresas estruturaram operações, pagaram outorgas e geraram empregos;
- Uma Medida Provisória abrupta, às vésperas de eleição, muda as regras do jogo da noite para o dia.
Para Paulo Solmucci (Abrasel), o sinal para o empreendedor é perigoso: “Interesses eleitorais açodados trazem enorme prejuízo e insegurança aos envolvidos”. Alfredo Cotait (CACB) vai direto ao ponto: “A vaca foi para o brejo, o estrago está feito. Quem paga a conta?”
O que o Congresso e o mercado devem monitorar daqui para frente
A sociedade civil organizada, por meio da campanha “Brasil Contra Bets” (125 mil assinaturas), pressiona para que a MP vire lei permanente via PL que restringe publicidade e patrocínios. O Congresso tem agora a caneta para transformar a emergência em política de Estado.
Do lado fiscal, o governo já admite a necessidade de compensar R$ 6,8 bilhões em receitas projetadas até 2027 que deixarão de entrar. Para o investidor e o empresário, a leitura é clara: o fim das bets alivia o bolso do consumidor no médio prazo, mas a forma como foi feito injeta uma dose extra de risco Brasil no curto. Acompanhar a tramitação legislativa e a recomposição fiscal não é opcional — é estratégia de sobrevivência.
