Economia

Lula reúne 500 empresários em SP: o recado que o mercado esperava (e o que faltou dizer)

Lula discursa para 500 empresários no Hotel Tivoli Mofarrej em São Paulo
Presidente Lula se reúne com 500 executivos em SP para discutir compromisso fiscal às vésperas da eleição

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva enfrentou uma plateia de mais de 500 executivos em São Paulo nesta sexta-feira (25) — nove dias antes do primeiro turno. O que eles queriam ouvir era simples: um sinal claro de compromisso fiscal. O que receberam foi um misto de acenos e silêncios que ainda ecoam nos bastidores.

O encontro, no Hotel Tivoli Mofarrej, reuniu nomes que movem a economia brasileira. Não era apenas volume; era peso.

Quem estava na sala — e por que isso importa

A lista de presentes funcionava como um mapa do PIB nacional. Do agronegócio à mineração, do varejo de tecnologia ao sistema financeiro, a diversidade setorial era deliberada.

  • Joesley Batista (J&F/JBS) — proteína animal e processamento de alimentos
  • Gustavo Pimenta (Vale) — mineração e commodities globais
  • Rodrigo Vidigal (Motorola Brasil) — manufatura de alta tecnologia
  • Milton Maluhy Filho (Itaú Unibanco) e Ricardo Lacerda (BR Partners) — crédito e investimento
  • Rubens Ometto (Cosan) e Ivan Monteiro (Axia Energia) — energia e infraestrutura
  • Marcos Almeida (Brookfield Brasil) — data centers e ativos de longo prazo
  • Lirio Parisotto (Innova) — varejo e consumo

Na área VIP, circulavam também o vice-presidente Geraldo Alckmin, Fernando Haddad, o advogado-geral da União Jorge Messias e a ex-ministra Simone Tebet. A presença de Haddad — candidato ao governo paulista — não passou despercebida.

O pano de fundo: bets proibidas e juros nas alturas

Horas antes do evento, Lula assinou medida provisória vetando apostas online em todo o território nacional. A decisão pegou o setor de surpresa e dividiu opiniões entre os presentes.

Parisotto aprovou a medida, mas chamou de tardia: “Nem deveria ter sido liberada”. Para ele, o dinheiro das bets “voa do Brasil” e prejudica o varejo. Já Carlos Marques, do Parlatório, reconheceu o esforço fiscal do governo, mas alertou: “Um cenário difícil se avizinha. Os problemas no Orçamento geram o risco de travar o país.”

O tema central, porém, era outro: a taxa Selic em patamar restritivo e o endividamento das famílias. Executivos ouvidos na recepção esperavam que a reta final da campanha forçasse um discurso mais pragmático.

O pedido único de quem aposta no Brasil

Marcos Almeida, à frente da Brookfield no país, foi direto após elogiar a aprovação de incentivo tributário para data centers: “Meu único pedido: que o governo lute para reconquistar o grau de investimento.”

A canadense Brookfield controla metade da Ascenty, maior operadora de data centers do Brasil. Para Almeida, o selo de qualidade traria novos projetos de infraestrutura — e empregos de alta qualificação. A equação é conhecida: contas públicas equilibradas → rating de agências → custo de capital menor → investimento produtivo.

O que não foi dito — e o que observar daqui pra frente

Alguns convidados deixaram o salão antes do discurso principal, incomodados com a demora. Outros permaneceram até o fim, anotando cada frase. O saldo? A plateia ouviu acenos à estabilidade, mas não a “música para os ouvidos” que um industrial definiu: a queda concreta dos juros.

Daqui em diante, três variáveis vão ditar se o encontro foi apenas cerimônia ou ponto de inflexão:

  • O próximo relatório de inflação e a resposta do Copom
  • A tramitação do arcabouço fiscal no Congresso pós-eleição
  • A execução orçamentária de 2024 — onde o “risco de travar o país” mora

Empresários não votam com o coração. Votam com a planilha aberta. E a planilha, por enquanto, ainda tem mais interrogações do que respostas.