O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) deu aval definitivo para a maior movimentação do varejo mineiro nos últimos anos: a aquisição de 114 unidades do Grupo DMA — bandeiras Epa e Mineirão — pelo Supermercados BH. A decisão, publicada em 24 de setembro, redesenha o tabuleiro competitivo em 19 municípios e projeta a receita combinada para a casa dos R$ 35 bilhões. Mas a dúvida que move o mercado agora é outra: qual bandeira vai estampar a fachada dessas lojas?
O xadrez do varejo mineiro muda de figura
A operação envolve unidades das marcas Epa Plus, Epa Premium e Mineirão. Segundo o parecer do Cade, a estratégia das requerentes é clara: expandir a presença do Supermercados BH em cidades onde a rede ainda não atua ou tem capilaridade baixa, além de penetrar em regiões com demanda reprimida por expansão.
Com o fechamento do negócio, o grupo liderado por Pedro Lourenço consolida a liderança absoluta em Minas Gerais e fortalece a quarta posição no ranking nacional da Abras. O faturamento atual de R$ 25,7 bilhões (dado de 2025) salta para um patamar que pressiona diretamente os concorrentes regionais e nacionais.
Onde o Supermercados BH passa a ter endereço certo
A capilaridade da aquisição impressiona pela densidade na Grande BH e pela entrada estratégica no interior. Confira a distribuição das 114 lojas por município:
- Belo Horizonte: 75 unidades (maior concentração, cobrindo 40 bairros)
- Contagem: 10 lojas
- Ribeirão das Neves: 5 unidades
- Santa Luzia: 3 lojas
- Sete Lagoas: 4 unidades
- Betim, João Monlevade, Nova Lima: 2 lojas cada
- Barbacena, Congonhas, Conselheiro Lafaiete, Coronel Fabriciano, Ipatinga, Itabirito, Juiz de Fora, Ouro Preto, Ponte Nova, Varginha, Vespasiano: 1 loja cada
A lista oficial do Cade detalha endereços exatos — da Avenida Cristiano Machado em Venda Nova à rodovia Fernão Dias em Contagem —, o que permite aos analistas mapear sobreposição de áreas de influência e potenciais fechamentos ou conversões.
A pergunta que vale bilhões: as bandeiras mudam?
O documento do Cade não impõe a troca de identidade visual. A reportagem questionou ambas as redes sobre a conversão das lojas DMA para a marca Supermercados BH, mas não obteve retorno até o momento.
Essa indefinição pesa no valuation do ativo. Manter a marca Epa em pontos premium pode preservar margens em públicos de maior renda; converter tudo para BH acelera ganhos de escala logística e de marca única. A decisão impacta diretamente contratos de aluguel, fornecedores regionais e programas de fidelidade.
O efeito cascata nos pequenos e médios varejistas
Para o empresário do setor, o sinal é de alerta. A concentração de 75 lojas apenas na capital cria “desertos competitivos” em bairros onde o DMA era a única alternativa ao atacarejo. Fornecedores regionais perdem poder de barganha diante de uma central de compras que agora processa volume ainda maior.
Por outro lado, a entrada do BH em cidades como Varginha, Ipatinga e Ouro Preto — onde a rede não tinha presença física — abre espaço para negociações de supply chain locais que antes não existiam.
O que observar daqui para frente
Três variáveis definirão o sucesso da integração nos próximos trimestres: a velocidade da conversão de sistemas (ERP, logística, precificação), a retenção de equipes gerenciais das lojas adquiridas e a reação do Carrefour e GPA nas praças de sobreposição.
Investidores devem monitorar o guidance de Capex para 2025: se o ritmo de reforma e padronização das 114 unidades superar 12 meses, o payback da aquisição pode ser antecipado. Para o consumidor final, a promessa do Cade — “penetração em regiões com demanda para expansão” — será testada na prática na forma de sortimento e preço nas gôndolas.
