Justiça

Leilão da SAF do Vasco: R$ 500 milhões e o mistério do ‘stalking horse’

Martelo de leilão sobre bandeira do Vasco com texto R$ 500 milhões e stalking horse
Leilão da SAF do Vasco na 4ª Vara Empresarial do Rio define futuro do clube nesta quinta.

A Justiça do Rio realiza nesta quinta-feira (25), às 14h, o leilão que definirá o controle de 90% da SAF do Vasco. O processo na 4ª Vara Empresarial tem um único lance inicial conhecido: o de Marcos Lamacchia, enteado da presidente do Palmeiras, Leila Pereira, e herdeiro da Crefisa. Se ninguém superar a oferta, o destino do clube está selado.

Mas a mecânica do “stalking horse” — o cavalo a ser perseguido — guarda armadilhas e oportunidades que vão muito além do valor de entrada. Entender as cláusulas é essencial para quem avalia o ativo.

O lance inicial e o direito de preferência

A Almirante Participações, veículo de Lamacchia, atua como primeira proponente. Isso garante a ela o direito de igualar qualquer oferta superior no prazo de três dias úteis. Na prática, concorrentes precisam apresentar proposta significativamente melhor para compensar a vantagem de cobertura.

O edital estabelece que vence quem oferecer a melhor combinação de preço, garantias e salvaguardas. A ausência de rivais qualifica automaticamente a Almirante como vencedora.

O que o comprador leva (e o que não leva)

O ativo à venda é uma UPI Equity — Unidade Produtiva Isolada de ações. O mecanismo blindou o futebol das dívidas históricas do clube associativo. Quem comprar recebe:

  • Controle de 90% da nova SAF a ser constituída;
  • Propriedade intelectual da marca Vasco;
  • Uso prioritário e exclusivo de São Januário até 31/12/2030.

Passivos trabalhistas, cíveis e tributários anteriores ficam fora da transação.

A conta real: muito além do aporte mínimo

O preço mínimo não é um cheque único. A proposta vincula R$ 500 milhões em investimentos obrigatórios no futebol entre 2026 e 2030 (R$ 100 milhões/ano), vedada a destinação para pagamento de dívidas. Há ainda compromissos de infraestrutura e captação:

  • Centro de Treinamento: R$ 120 milhões em 10 anos;
  • Categorias de base: R$ 30 milhões em 2 anos;
  • Incentivos fiscais: obrigatoriedade de conduzir projetos que capturem R$ 150 milhões em uma década;
  • Aluguel do estádio: R$ 3 milhões/ano ao clube associativo (cai para R$ 2 milhões se reforma impedir uso).

Somados, os compromissos obrigatórios ultrapassam R$ 800 milhões na próxima década — cifra que dita a viabilidade econômica do negócio.

Cenários para a audiência de hoje

Três desfechos são possíveis nas próximas horas:

  • Sem concorrentes: Almirante é declarada vencedora na própria audiência;
  • Com concorrente superior: Juiz anuncia a melhor proposta; Almirante tem 3 dias úteis para cobrir;
  • Impugnação ou questionamentos: Processo pode ser estendido, mas o edital busca celeridade.

O que observar daqui para frente

A assinatura do contrato e a integralização da primeira parcela de R$ 100 milhões (referente a 2026) são os marcos imediatos. Investidores e credores devem monitorar: a constituição da nova SAF, a governança que Lamacchia ou eventual rival implantarão, e a capacidade de execução dos projetos de incentivo fiscal — única fonte não operacional prevista no plano. O fluxo de caixa real do futebol vascaíno começa a ser testado agora.