Uma falha técnica no Banco Honda atrasou a liberação de financiamentos do programa Move Motos e deixou mais de 3.000 motocicletas sem emplacamento. O problema expõe a fragilidade operacional no lançamento de uma das principais linhas de crédito para trabalhadores de aplicativo em 2024.
O banco da montadora japonesa ficou em terceiro lugar no ranking de concessões garantidas pelo FGO (Fundo de Garantia de Operações), com 3.286 contratos formalizados até o momento. A financeira da rival Yamaha lidera com 5.775 operações, seguida por Caixa (3.069) e Banco do Brasil (2.134).
Por que o Banco Honda largou atrás
Segundo apuração junto a um funcionário da instituição, os sistemas internos não estavam prontos na data oficial de estreia do programa, no final de julho. A financeira só começou a processar o crédito do Move Motos em 17 de agosto — quase três semanas depois dos concorrentes.
O gargalo estava na plataforma terceirizada responsável por transmitir os dados do financiamento ao Detran. A falha impediu o envio automático das informações, forçando a equipe a fazer remessas manuais para que os entregadores não perdessem o prazo legal de 30 dias para emplacar o veículo zero-quilômetro.
Em nota, o Banco Honda confirmou a implementação de uma nova plataforma para operar o programa, incluindo registro de garantia e contratos. A empresa classificou as ocorrências como pontuais e afirmou que foram resolvidas dentro do prazo legal.
O que os números revelam sobre o mercado
O volume total contratado pelo Move Brasil Motos soma R$ 306 milhões, distribuídos em 14.264 financiamentos. A concentração é forte: 67% dos contratos foram fechados apenas em agosto, mês em que o Banco Honda entrou na disputa.
- Yamaha (financeira): 5.775 contratos
- Banco Honda: 3.286 contratos
- Caixa Econômica Federal: 3.069 contratos
- Banco do Brasil: 2.134 contratos
A moto mais financiada pela instituição da montadora japonesa é a CG Titan 160cc flex. O ticket médio gira em torno de R$ 21.000, com prazo padrão de quatro anos e carência de dois meses.
Regras do jogo: quem pode acessar o crédito
O Move Motos oferece juros de 12,5% ao ano, bem abaixo das taxas praticadas no varejo tradicional para o mesmo perfil de risco. Podem participar motoboys, mototaxistas e entregadores de plataformas como iFood, 99Food e Keeta.
Os critérios de elegibilidade são objetivos: trabalhador ativo no aplicativo com pelo menos 100 corridas completadas ou vínculo formal (CLT) há no mínimo seis meses. O governo estima que o programa atenda a uma demanda reprimida por renovação de frota em um setor que movimenta milhões de viagens por dia.
O tamanho real do programa ainda é incerto
Na semana passada, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) divulgou a marca de 19.000 motos vendidas via Move Brasil. No entanto, a pasta não soube confirmar se os dados do FGO — que cobrem apenas operações com garantia do fundo — representam a totalidade dos financiamentos.
Caixa e Yamaha afirmam que 100% de seus contratos no programa contam com a garantia do FGO. O Banco do Brasil, segundo apuração, segue o mesmo padrão. A discrepância entre o número oficial (19 mil) e o total garantido pelo fundo (14.264) sugere que parte das operações pode ter sido feita sem a cobertura federal ou que há atraso na consolidação dos dados.
O que observar daqui para frente
A normalização dos sistemas do Banco Honda deve acelerar sua participação nos próximos meses, mas a vantagem inicial da financeira da Yamaha já se traduziu em quase 2.500 contratos de diferença. Para o entregador, a lição prática é clara: comparar condições entre as quatro instituições habilitadas pode render economia real no custo total do financiamento.
Do lado macro, a expansão do Move Brasil para caminhoneiros, taxistas, empresas de logística e agronegócio indica que o governo pretende usar o mesmo modelo de garantia (FGO) para alavancar outras frentes de renovação de frota. A execução técnica dos bancos, como mostrou o caso Honda, será o fator decisivo para transformar anúncio em crédito na ponta.
