Economia

Mercosul e EFTA: acordo histórico entra em vigor em outubro e muda o jogo para exportadores

Mapa destacando países do Mercosul e EFTA unidos por aperto de mão simbolizando acordo de livre comércio
Acordo Mercosul-EFTA entra em vigor em outubro de 2026, abrindo mercados europeus para exportadores sul-americanos

O Brasil oficializou nesta sexta-feira (25) a promulgação do acordo de livre comércio entre o Mercosul e a Associação Europeia de Livre Comércio (EFTA). O Decreto nº 13.126, publicado no Diário Oficial da União, encerra a tramitação interna e coloca o tratado em vigor a partir de 1º de outubro de 2026.

A medida abre as portas de quatro economias europeias de alta renda — Islândia, Liechtenstein, Noruega e Suíça — para produtos sul-americanos com tarifas reduzidas e regras mais simples. Mas o que isso significa, na prática, para quem exporta ou importa hoje?

O que muda a partir de 1º de outubro

O texto elimina barreiras técnicas consideradas desnecessárias e flexibiliza medidas sanitárias e fitossanitárias que, até aqui, travavam embarques de alimentos e agroindustriais. Procedimentos aduaneiros ganham padronização digital, reduzindo tempo de liberação em portos e aeroportos.

Empresas brasileiras passam a ter acesso direto a licitações governamentais nos quatro países da EFTA, mercado que movimenta bilhões em compras públicas anuais. O reconhecimento mútuo de indicações geográficas protege produtos como café do Cerrado, queijo Canastra e vinhos da Serra Gaúcha contra imitações.

Números que importam para o seu negócio

  • Bloco EFTA: PIB combinado superior a US$ 1,8 trilhão
  • População-alvo: 14,5 milhões de consumidores de alto poder aquisitivo
  • Tarifa zero: Prevista para 96% das linhas tarifárias em até 10 anos
  • Rodadas de negociação: 10 encontros entre 2017 e 2025

O Congresso aprovou o texto em junho de 2026 e a ratificação presidencial ocorreu em julho. O rito interno está concluído; agora, a implementação depende de atos regulatórios dos ministérios da Fazenda, Agricultura e Relações Exteriores.

Além de tarifas: sustentabilidade e propriedade intelectual

O acordo não se resume a comércio de mercadorias. Capítulos específicos tratam de proteção ambiental, biodiversidade, direitos humanos e desenvolvimento sustentável — exigências que alinham o Brasil a padrões europeus de due diligence corporativa.

Na propriedade intelectual, o tratado reforça patentes, desenhos industriais e segredos de negócio, o que beneficia setores farmacêutico, de tecnologia e de cultivar agrícolas. Para startups e indústrias de base científica, a segurança jurídica aumenta o apelo de investimentos transfronteiriços.

O efeito nos pequenos e médios exportadores

Grandes tradings já operam com estruturas de compliance internacional. O ganho real está nas PMEs que, até hoje, esbarravam em certificações duplicadas e custos logísticos proibitivos. A simplificação aduaneira e o portal único de comércio exterior — em fase de integração com sistemas da EFTA — podem cortar até 30% do tempo médio de exportação.

Setores como frutas tropicais, mel, couro, calçados e móveis de design ganham competitividade imediata. A Noruega, por exemplo, importa 90% dos frutos do mar que consome; a Suíça lidera compras globais de café especial.

O que observar daqui para frente

Os próximos 90 dias serão decisivos. A publicação de portarias interministeriais definirá regras de origem, cotas tarifárias transitórias e prazos de adequação para certificados fitossanitários. Empresas que anteciparem o mapeamento de NCMs elegíveis e atualizarem sistemas de rastreabilidade largam na frente.

Outro ponto de atenção: a Venezuela permanece suspensa do Mercosul desde 2017. Caso o país retome seus direitos no bloco, o acordo se estenderá automaticamente — o que adiciona 28 milhões de consumidores, mas também complexidade regulatória.

Por fim, a EFTA negocia acordos paralelos com Indonésia, Vietnã e Tailândia. O Brasil, como maior economia do Mercosul, pode usar esta janela para pleitear cláusulas de cumulação de origem que beneficiem cadeias regionais integradas. Quem monitorar a agenda diplomática dos próximos trimestres terá vantagem na hora de escalar.