O candidato à Presidência Renan Santos (Missão) desembarcou em Franca (SP) nesta sexta-feira (25) com um diagnóstico direto: a sobretaxa de 50% imposta pelos Estados Unidos a produtos brasileiros está desmontando a principal economia da cidade. A medida, anunciada em julho de 2025 pelo presidente Donald Trump, atinge em cheio o setor calçadista local — e o discurso do candidato conecta a decisão americana ao alinhamento político da região nas últimas eleições.
O que está em jogo para o maior polo calçadista do país
Franca responde por uma fatia significativa da produção nacional de calçados masculinos e exporta volume relevante para o mercado americano. Com a tarifa elevada para 50%, a competitividade dos produtos brasileiros cai vertiginosamente frente a concorrentes asiáticos e de outros países latinos não taxados na mesma proporção.
Segundo o candidato, o impacto não se limita ao calçado. A sobretaxa também atinge:
- Setor madeireiro do Paraná
- Pescados e congelados do Nordeste
- Outros manufaturados de médio valor agregado
Em comum, são setores intensivos em mão de obra e com cadeias longas de fornecedores locais — o que multiplica o efeito recessivo em municípios de médio porte.
A ligação política que ninguém comenta
Santos apontou o que chama de “contradição eleitoral”: Franca deu votação expressiva à família Bolsonaro nas duas últimas disputas presidenciais. A resposta, em sua leitura, veio na forma de tarifaço — e com celebração pública por parte dos aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
A carta de Trump citando o julgamento do ex-presidente no STF como pano de fundo para a medida adiciona um elemento atípico: a justificativa geopolítica mistura-se a motivações de política interna brasileira, algo raro em comunicações comerciais formais entre nações.
Raras: o tabuleiro onde Lula e Flávio Bolsonaro convergem
Outro ponto da agenda foi a crítica simultânea ao presidente Lula (PT) e ao senador Flávio Bolsonaro (PL) sobre terras raras. Para Santos, ambos tratam o tema como moeda de troca com potências estrangeiras: Lula favorecendo interesses chineses, Flávio alinhado aos americanos.
O candidato defende que o Brasil use o controle desses minerais — essenciais para ímãs, baterias e eletrônicos — como alavanca negocial, não como concessão prévia. “Bons acordos, nunca acordos submissos”, resumiu.
Plano de reindustrialização: cinco eixos centrais
Questionado sobre como reverter o quadro, Santos apresentou um pacote que chama de “reformas de competitividade”:
- Tarifas reciprocas a produtos americanos
- Investimento público em infraestrutura (energia e logística rodoviária)
- Flexibilização trabalhista para contratação e demissão
- Corte de despesas de custeio para abrir espaço à queda de juros
- Promoção internacional de marcas brasileiras industrializadas
A tese central: o Brasil vive “reprimarização” — volta a exportar commodities e perde capacidade fabril. A solução, na visão do candidato, passa por custo Brasil menor e política comercial ativa.
Agenda de campanha e próximos passos
Após Franca, a caravana seguiu para Uberaba e Uberlândia (MG). Na véspera, o candidato cumpriu agenda em Piracicaba, São Carlos e Ribeirão Preto (SP). O roteiro privilegia o interior paulista e o Triângulo Mineiro — regiões com parque industrial diversificado e sensíveis a câmbio, juros e acesso a mercados externos.
O que observar daqui pra frente: a reação do setor calçadista francanos às propostas de reciprocidade comercial; o desdobramento da disputa sobre terras raras no Congresso; e se o tema “tarifaço” migra do palanque para a pauta legislativa efetiva. Para empresários da região, a equação é prática: quanto tempo o caixa aguenta com 50% de barreira na maior mercado consumidor do mundo?
