A Eneva, maior operadora privada de gás natural do Brasil, formalizou nesta semana um memorando de entendimento com a americana Halliburton para prospectar áreas de desenvolvimento petrolífero na Venezuela. A movimentação coloca a empresa — controlada pelo BTG Pactual — na linha de frente da reabertura do setor energético venezuelano, sob tutela dos Estados Unidos desde janeiro, após a captura de Nicolás Maduro.
Mas por que uma gigante do gás brasileiro aposta agora no petróleo venezuelano? A resposta passa por uma reconfiguração geopolítica que poucos acompanham de perto.
O movimento da Eneva e a parceria técnica
O acordo assinado em Caracas não detalha valores nem blocos específicos. Fontes próximas à negociação afirmam que a Eneva inicia oficialmente a fase de prospecção, com executivos viajando frequentemente à capital venezuelana. A escolha da Halliburton como parceira técnica sinaliza foco em eficiência operacional e acesso a tecnologia de ponta para avaliar ativos maduros.
A empresa brasileira busca replicar sua expertise em gás onshore em um país que detém as maiores reservas de petróleo do mundo. A entrada ocorre meses após a JBS adquirir cerca de 50% da Petrororaima, na região do Orinoco, tornando a Eneva a segunda grande corporação brasileira a pisar nesse tabuleiro.
Por que a Venezuela virou alvo do capital brasileiro
A flexibilização do setor é conduzida pelo governo interino de Delcy Rodríguez, com patrocínio direto de Washington. O cenário mudou radicalmente: executivos da PDVSA participaram da reunião de energia do G20 no Texas a convite da gestão Trump — algo impensável até pouco tempo.
- JBS: entrou via Petrororaima no Orinoco.
- Alvorada Heavy Industries (Galapagos Capital): expandiu produção em três blocos no Orinoco e negocia novas áreas.
- Eneva: assina MoU com Halliburton para identificar oportunidades.
O interesse cresce ao ponto de a Venezuela organizar a “Semana da Energia” em fevereiro do próximo ano, vendendo a imagem de “parceiro energético global aberto”.
Os números por trás da reabertura
O grande catalisador foi o acordo de agosto entre Caracas e Washington, que transferiu o controle majoritário de mais de 21% das reservas venezuelanas para os EUA. Donald Trump projetou investimentos superiores a US$ 100 bilhões (cerca de R$ 500 bilhões).
Até agora, o dado concreto mais confiável vem da Opep: a produção subiu levemente para 1,2 milhão de barris/dia em agosto, ante média de 1,08 milhão em 2023. A transparência sobre o fluxo real de capital, contudo, segue baixa, alimentando ceticismo.
O risco que ninguém ignora: segurança jurídica
Apesar do otimismo, uma ala de investidores e consultores de risco mantém ressalvas. A estrutura de poder remanescente da era Maduro, agora sob Delcy Rodríguez, levanta dúvidas sobre a solidez dos contratos a longo prazo.
A presença americana ameniza o temor, mas não o elimina. Relatórios recentes de observadores da ONU indicam que o aparato repressivo segue intacto, e a líder opositora María Corina Machado permanece impedida de retornar. O distensionamento político não acompanhou a velocidade da abertura econômica.
O que observar daqui para frente
Delcy Rodríguez está em Nova York para a Assembleia-Geral da ONU, onde se reuniu com Trump priorizando energia e mineração. A última vez que um líder venezuelano discursou no plenário foi 2018, no auge da crise.
Para o investidor, o gatilho de curto prazo é a definição dos blocos que a Eneva e a Halliburton efetivamente licitarão. O sinal definitivo de maturidade desse novo ciclo será a publicação de marcos regulatórios claros e a demonstração de que os US$ 100 bilhões prometidos saem do papel para a infraestrutura real. Quem chegar primeiro, com estrutura para assumir risco político, tende a ditar as regras do jogo nos próximos anos.
