Economia

Crise no STF vira trunfo: Flávio esconde o ‘como’ do ajuste fiscal

Flávio Bolsonaro em campanha eleitoral com fundo do STF e gráficos de ajuste fiscal
Flávio Bolsonaro evita detalhar plano fiscal de 1,5% do PIB enquanto explora crise no STF

Faltando menos de duas semanas para o primeiro turno, a campanha de Flávio Bolsonaro (PL) tomou uma decisão calculada: trancar a gaveta das propostas econômicas detalhadas. A aposta é surfar a crise institucional no STF para converter a rejeição a Alexandre de Moraes em votos. Mas o silêncio sobre o “como” do ajuste fiscal de 1,5% do PIB deixa o mercado em compasso de espera.

A estratégia do silêncio calculado

O coordenador político, senador Rogério Marinho (PL-RN), admite que nomes para a equipe econômica existem, mas descarta antecipá-los. “Quem vai fazer esse detalhamento vai ser o Congresso”, disse a coordenadora Daniella Marques em entrevista recente, acrescentando que a campanha fará “autocontenção” no Parlamento.

A fala soa como um aviso: o executivo propõe a meta, o legislativo opera a tesoura. Para investidores, porém, a ausência de um desenho operacional para o novo teto de gastos — ancorado na relação dívida/PIB — cria uma zona de incerteza perigosa a dias da urna.

O que se sabe (e o que não se sabe) do plano fiscal

O núcleo econômico, chefiado por Adolfo Sachsida e reforçado por nomes como Luiz Felipe Trevisan (ex-Itaú BBA) e Alexandre Messa (ex-MDIC e Economia), define dois pilares centrais:

  • Meta de resultado primário: superávit de 1,5% do PIB.
  • Nova âncora fiscal: limite de despesas atrelado à trajetória da dívida/PIB.

Faltam, contudo, a regra de transição, gatilhos de contingenciamento e a composição do corte — se virá de custeio, investimento ou renúncias tributárias. A campanha evita cravar se haverá reforma administrativa ou tributária paralela.

O fantasma de abril e o medo do desgaste

O trauma de abril explica a cautela. Na ocasião, vazaram estudos sobre desvincular pisos de saúde (15% da RCL) e educação (18% da RLI), além de atrelar o reajuste do salário mínimo apenas à inflação. Flávio negou publicamente, mas Daniella não descartou as medidas.

A comparação com o “modelo Milei” na Argentina virou munição adversária. O resultado prático foi um recuo tático: o discurso migrou para generalidades sobre “cortar na carne” e “gastança petista”, blindando o candidato de propostas impopulares.

A aposta na crise do Supremo como cortina de fumaça

Reservadamente, estrategistas admitem: o noticiário dominado pelo escândalo do Banco Master e pela tensão no STF criou uma “maré favorável”. O foco virou transferir ao presidente Lula (PT) o ônus da instabilidade institucional, vendendo Flávio como único agente capaz de “sanear o Supremo”.

Marinho rebate a tese do “cheque em branco” citando o histórico do governo anterior: dívida/PIB caiu de 75% para 71% em quatro anos. “O mercado já entendeu isso”, garante. Analistas, porém, notam que o cenário externo e o ponto de partida fiscal de 2026 são radicalmente diferentes.

O contra-ataque do Planalto e o vazio social

A campanha de Lula explorou o vácuo. O slogan “Falar é Flávio, fazer é Lula” entrou no horário eleitoral, acompanhado da contagem: 21 mil palavras no plano de governo sem menção a salário mínimo, Pé-de-Meia ou Minha Casa Minha Vida.

Sobre privatizações, Flávio acena com a bandeira, mas veta os Correios — empresa em crise fiscal severa. A contradição sinaliza que escolhas difíceis ficaram para depois da posse.

O que observar daqui para frente

A promessa oficial é que o detalhamento virá na transição. Para o empresariado, três variáveis ditam o risco nos próximos meses: a composição real da equipe da Fazenda (circula o nome de Marcelo Kayath), a disposição do Congresso em aprovar cortes estruturais sem contrapartidas políticas e a reação do mercado de juros à prolongada ambiguidade. Quem precisa precificar ativos ou planejar investimentos em 2025 deve monitorar não o que está escrito, mas o que continua sem resposta.