Tecnologia

O ‘Tamagotchi’ de US$ 56 bi: Meta aposta em pingente de IA para matar o smartphone

Pingente Muse Charm da Meta com tela de 2 polegadas e 5G, novo dispositivo de IA vestível
O Muse Charm, pingente de IA da Meta com tela de 2" e 5G, promete substituir o smartphone.

A Meta acaba de colocar no bolso dos usuários — literalmente — a sua maior aposta para sair da sombra da Apple e do Google. O Muse Charm, um pingente com tela de 2 polegadas e 5G embutido, foi revelado por Mark Zuckerberg nesta quarta-feira (24) como a “melhor forma de acessar a superinteligência pessoal”. As ações subiram 3% no dia seguinte, somando US$ 56 bilhões em valor de mercado desde o lançamento do aplicativo Muse, em 8 de setembro.

O movimento sinaliza uma virada radical: a empresa que queimou bilhões no metaverso agora aposta que a IA pessoal chegará antes — e será maior — que mundos virtuais imersivos.

Um dispositivo que não precisa do celular

O Charm funciona de forma independente. Toque na tela, fale com o assistente e obtenha respostas sem abrir um único aplicativo no smartphone. Há um modem 5G próprio, mas o aparelho não faz ligações. No centro da interface, um avatar personalizável reage por voz e texto — uma referência direta aos Tamagotchis que dominaram os anos 90.

“Algumas pessoas não querem usar óculos ou não confiam neles”, resume Jitesh Ubrani, diretor da IDC. O formato pingente atende a esse público e ainda carrega apelo de moda retrô, especialmente entre a geração Z.

Por que a geração Z é o alvo principal

Consumidores de 14 a 29 anos tratam assistentes de IA como companheiros, não ferramentas de busca. Eles preferem notas de voz e vídeos curtos a digitar em telas. O Charm nasce para esse comportamento: um “bolso” onde a IA vive 24 horas por dia, sem a fricção de desbloquear o telefone.

Linda Sui, da Smart Analytics Global, vê potencial: “A combinação de IA, moda e personalização pode atrair os mais jovens, especialmente se for acessível e fácil de usar”. O preço, contudo, não foi divulgado.

O fantasma do Rabbit R1 assombra o lançamento

Dispositivos dedicados de IA já tentaram e falharam. O Rabbit R1, lançado no início de 2024 com promessas agressivas, decepcionou por entregar experiência instável e recursos limitados. Analistas alertam: sem funções exclusivas que smartphones, relógios ou fones não substituam, o Charm corre risco de virar “gadget legal para early adopters” e não produto de massa.

  • Muse app: maior lançamento nos EUA desde o ChatGPT (nov/2022)
  • Valor de mercado adicionado: ~US$ 56 bi desde 8/09
  • Tela: 2 polegadas (5 cm), controle por polegar
  • Conectividade: 5G integrado, sem Wi-Fi obrigatório
  • Limitação: não realiza chamadas telefônicas

Estratégia: escapar do duopólio móvel

Há anos a Meta tenta se livrar da dependência do iOS e do Android. Óculos inteligentes Ray-Ban Meta foram o primeiro passo. O Charm é o segundo — e o primeiro que coloca a IA no centro, sem mediação de lojas de aplicativos alheias. Zuckerberg foi irônico com a Apple durante o evento, mas adotou o roteiro de Steve Jobs: “mais uma coisa” revelada no fim da keynote.

“Mudamos nosso foco para criar os melhores dispositivos para superinteligência pessoal”, disse o CEO. O Muse também chegará em breve a toda a linha de óculos da empresa.

O que observar nos próximos meses

A retenção do aplicativo Muse — milhões de downloads em semanas — será o termômetro real. Se usuários voltarem diariamente ao avatar no pingente, a Meta terá provado que hardware dedicado para IA faz sentido. Caso contrário, o Charm junta-se ao cemitério de wearables que prometeram matar o smartphone e viraram enfeite de gaveta. O próximo relatório de resultados, em outubro, trará os primeiros números de adoção.