Cultura

O hobby que faz adultos cavarem a madrugada em busca de “bips” misteriosos

Grupo de adultos usando detectores de metal em campo aberto durante evento Detect Camp SP em Buri
Participantes do Detect Camp SP buscam tesouros históricos com detectores de metal em Buri (SP).

Um advogado de 62 anos e uma catarinense de 47 percorrem quilômetros com detectores de metal: não procuram ouro, mas algo que o dinheiro não compra. O encontro marcado para este fim de semana em Buri (SP) revela por que essa prática vicia mais que rede social.

Pedro Luiz Conti Mariozi organiza o “Detect Camp SP” nos dias 26 e 27. A programação inclui palestras técnicas, briefing e uma caça ao tesouro competitiva — tudo dentro de um restaurante à beira da Rodovia Engenheiro Lauri Simões de Barros, no bairro Aracaçu. Participantes vindos de Santa Catarina, Paraná e Rio de Janeiro já confirmaram presença; alguns rodaram 15 horas de estrada só para estar lá.

O vício começa no primeiro “bip”

Pedro descobriu o detectorismo há duas décadas, movido pela Revolução Constitucionalista de 1932. Precisava localizar fragmentos de combate nas trincheiras de Guapiara (SP). Comprou o primeiro equipamento e, no primeiro achado histórico, entendeu a mecânica do vício: a dopamina dispara antes mesmo de saber o que está enterrado.

“A reação ao achar a primeira relíquia é única”, resume. Hoje, o advogado passa “tempos razoáveis” varrendo praias e campos. Não há cronômetro: a busca dita o ritmo.

Quando o hobby vira família

Susana Hens, moradora de Barra Velha (SC), rodou 500 km até Buri. Pratica há 22 anos e transformou a atividade em empreendimento familiar: com o marido e os filhos, formou a equipe “Os Piratas do Detectorismo”. Tudo começou na infância, com histórias de potes de moedas e mapas imaginários.

O primeiro achado real foi uma chave de carro enterrada na areia de praia, em área de piquenique. Ela localizou o dono e devolveu. “O detectorismo veio para minha vida como possibilidade de ter melhor qualidade de vida, equilíbrio físico e mental”, diz. A expectativa a cada sinal sonoro, segundo ela, é o combustível.

O que realmente sai da terra

Nem tudo é relíquia. A lista de achados frequentes surpreende:

  • Moedas antigas e joias (o sonho de todo praticante)
  • Brinquedos colecionáveis e itens de valor sentimental
  • Latas, embalagens, pregos e pedaços de ferro — lixo que vira dado ambiental
  • Lacres de alumínio, separados e doados para instituições que trocam por cadeiras de rodas

Susana estima que, em cada saída, o volume de resíduos metálicos retirados supera o de objetos “valiosos”. O hobby, assim, funciona como limpeza ambiental disfarçada de diversão.

Por que o detectorismo explodiu agora

A chegada de fabricantes nacionais barateou os equipamentos. Antes, importar um detector decente custava fortunas e exigia paciência de importador. Com preços acessíveis e suporte local, a barreira de entrada caiu — e os grupos se multiplicaram pelo Brasil.

Pedro notou o movimento e criou o evento para conectar essas tribos. “Me surpreendi com a adesão”, admite. A edição de 2024 deve reunir centenas de pessoas em dois dias de imersão técnica e social.

O que observar daqui para frente

Se você é investidor ou empreendedor, três sinais merecem atenção: o mercado de detectores nacionais está em expansão; eventos de nicho como o Detect Camp SP demonstram capacidade de mobilização interestadual; e a vertente ESG — limpeza de praias + reciclagem de lacres — abre espaço para patrocínios com apelo socioambiental real.

O próximo “bip” pode vir de onde menos se espera: de um fundo de investimento olhando para esse público fiel, envelhecido e com poder de compra, que passa finais de semana cavando a terra — e voltando para casa com histórias, não ouro.