Cultura

Você não vai acreditar: cafeteria de 5 anos entra no top 100 da América do Sul…

Fachada da 15 Coffee Company em Sorocaba, cafeteria premiada no top 100 da América do Sul
A 15 Coffee Company, em Sorocaba, celebra entrada no ranking das 100 melhores cafeterias da América do Sul.

Uma cafeteria de Sorocaba, no interior de São Paulo, acaba de figurar entre as 100 melhores da América do Sul em premiação internacional realizada no Equador. O reconhecimento coloca a 15 Coffee Company no mesmo patamar de casas consagradas de capitais como Bogotá, Buenos Aires e São Paulo. Mas o que uma operação de cinco anos, fora do eixo tradicional, tem de tão especial para atrair a atenção de juízes anônimos e vencer a concorrência continental?

A resposta não está em um único fator. Está na soma de decisões que a maioria dos empreendedores do setor evita tomar: produzir o próprio grão, formar a própria mão de obra e transformar o cliente em embaixador da marca.

Da fazenda à xícara: o controle que poucos têm

Em 2021, a sócia Aline Codo deixou a capital paulista para assumir uma fazenda em Coqueiral, sul de Minas Gerais. A decisão não foi romântica — foi estratégica. Ter a própria lavoura permite definir variedade, ponto de colheita, processo de secagem e armazenagem sem depender de intermediários.

Daniel Carvalho, o outro sócio, veio da indústria farmacêutica. A formação técnica em controle de qualidade e processos padronizados migrou do laboratório para o café. Juntos, eles eliminaram a principal variável de risco do negócio: a inconsistência do grão.

Hoje, cada pacote vendido na loja carrega o nome do produtor, a fazenda, o processo e as notas sensoriais. Transparência que o varejo de escala não consegue entregar.

O modelo de avaliação que premiou a consistência

A seleção sul-americana, realizada em Quito no último domingo (20), combinou dois pesos. Setenta por cento da nota veio de jurados anônimos que avaliaram inovação, conhecimento técnico, hospitalidade e desempenho dos baristas. Os 30% restantes vieram de votação popular.

Para chegar à fase final, a casa precisou receber mais de uma visita secreta. Juízes não se identificam, não avisam e não perdoam oscilação. O fato de a 15 Coffee Company ter passado por esse crivo múltiplo sinaliza que a experiência se mantém no padrão alto mesmo nos dias ruins.

Escola de baristas: resolvendo o gargalo da mão de obra

Encontrar baristas bem formados no interior é difícil. A solução dos sócios foi criar a Sorocaba Coffee Academy. A escola já formou profissionais que hoje atuam em outras cafeterias da região — algumas usando o mesmo grão da 15.

O ecossistema não para na formação profissional. Um clube de entusiastas reúne quase 300 inscritos em oficinas, cursos gratuitos e eventos de degustação. A comunidade virou motor de indicação orgânica e, na hora da votação popular do prêmio, base de mobilização.

Cardápio pensado como experiência, não como complemento

A gastronomia não é apêndice. Uma chef desenvolveu pratos harmonizados com os perfis de café da casa. Baristas orientam o cliente na escolha conjunta: bebida + comida.

O menu de bebidas vai além do filtrado e do espresso. Drinks autorais — alcoólicos e não alcoólicos — usam café como base, explorando métodos de preparo distintos. Até a água e a xícara são especificadas tecnicamente para cada extração.

O que observar daqui para frente

A certificação abre portas para representar o continente em guias globais de turismo de café. Para o empresário do setor, o caso deixa três lições práticas: verticalização do grão reduz custo e risco; escola própria resolve contratação e cria rede de influência; e comunidade engajada vira ativo de marketing mensurável.

Se a 15 Coffee Company mantiver a consistência que impressionou juízes anônimos, o próximo passo natural é a disputa por posições no ranking mundial. O interior paulista, historicamente consumidor de commodity, passa a exportar referência de especialidade.