O Brasil atingiu o menor índice de miséria da história recente, mas a satisfação com a vida segue 5% abaixo do pico de 2014. Um estudo do FMI sobre o Butão ajuda a decifrar esse desencontro.
Dados do World Happiness Report mostram que a avaliação média dos brasileiros — numa escala de 0 a 10 — caiu para 6,11 em 2022, o piso da série iniciada em 2011. Houve recuperação de 8% até 2025, alcançando 6,63. Ainda assim, o patamar permanece distante dos 6,98 registrados há uma década.
Quando os números macro mentem
O “índice de miséria” — soma do desemprego (5,5%) com a inflação em 12 meses (4,2%) — estaciona em 9,7 pontos, menor nível desde 1996. Em 2014, no auge da satisfação, o mesmo indicador superava 13 pontos. Pela métrica econômica tradicional, nunca estivemos “menos miseráveis”. Pela percepção subjetiva, regredimos.
Essa divergência não é exclusividade brasileira. Um working paper do FMI (Balasubramanian e Cashin, WP 2026/192) analisou quatro décadas de dados do Butão, país que substituiu o PIB pela Felicidade Interna Bruta nos anos 1970. O resultado: o crescimento acelerado da renda butanesa teve associação fraca com o avanço do bem-estar. Confirma-se, na prática, o paradoxo de Easterlin — renda é condição necessária, mas não suficiente.
Segurança: o fator invisível nas planilhas
Se a economia explica parte da história, a segurança pública escreve capítulos que os agregados macroeconômicos ignoram. As mortes violentas intencionais caíram para 19,1 por 100 mil habitantes em 2025 — o menor patamar da série do Anuário Brasileiro de Segurança Pública (eram 27,7 em 2012).
Mas a percepção não acompanha a estatística. Pesquisa Quaest aponta que 30% dos brasileiros elegem a violência como o principal problema do país. Há racionalidade nisso:
- O patamar de homicídios segue alto para padrões internacionais
- Crimes de estelionato explodiram: 2,3 milhões de registros em 2025, alta de 430% desde 2018
- Facções migraram do tráfico para golpes virtuais — menos corpos, mais vítimas, mais lucro
Como registrou The Economist, o modelo de negócio do crime mudou: menos assassinatos, mais dinheiro, muito mais gente lesada.
O novo vetor de fragilidade financeira
Outro fenômeno correlaciona-se com a insatisfação difusa: as apostas online. Levantamento AtlasIntel/Bloomberg desta semana revela que 88,5% dos brasileiros veem mais prejuízos do que benefícios nas bets. A intuição encontra respaldo empírico.
Estudo de Carvalho, Firpo, Freitas e Scatimburgo cruzou transações bancárias com o registro de crédito do Banco Central. Quem começa a apostar:
- Eleva em 20% a probabilidade de inadimplência (39% no cartão de crédito)
- Reduz o limite de crédito em 16%
- Derruba em 43% a variação mensal do saldo em conta
Existe causalidade reversa: a dificuldade financeira prévia aumenta a chance de ingressar nas apostas. Um ciclo vicioso que drena renda das famílias mais vulneráveis.
O que observar daqui para frente
Maximizar o bem-estar intertemporal exige olhar além do PIB e do índice de miséria. Segurança, saúde, educação e regulação de atividades com externalidades negativas — poluição, mudanças climáticas, apostas predatórias — compõem a equação. E há uma condição sine qua non: sustentabilidade fiscal. Não há felicidade interna bruta duradoura sem responsabilidade nas contas públicas. O desafio para gestores e investidores é monitorar indicadores que o PIB não captura, mas que determinam a estabilidade social e, por consequência, o ambiente de negócios.
