O dólar comercial fechou a quinta-feira (24) cotado a R$ 5,193, alta de 0,47%, atingindo o maior patamar desde o fim de agosto. Paralelamente, o Ibovespa recuou 0,99%, perdendo o suporte dos 184 mil pontos. A sessão foi definida por uma onda de aversão a risco global que pegou os ativos brasileiros no contrapé.
O gatilho principal veio do exterior: os juros dos Treasuries de 10 anos furaram a barreira dos 5,22%, nível não visto desde 2007. Isso torna o título americano — refúgio mais seguro do planeta — imbatível para o capital especulativo, drenando recursos de emergentes como o Brasil.
O movimento nos números
O dia foi de realização de lucros e ajuste de posições. Confira o resumo das principais variáveis:
- Dólar à vista: R$ 5,1931 (+0,47%); máxima intradiária em R$ 5,202.
- Ibovespa: 183.965,91 pontos (-0,99%); giro financeiro pressionado.
- Treasury 10 anos: 5,2209% (fechamento anterior em 5,114%).
- Petróleo Brent: US$ 106,60 (+3,41%), acumulando alta de 18% no mês.
BC entra em cena para segurar a volatilidade
O Banco Central não ficou parado. A autoridade monetária injetou US$ 1 bilhão via dois leilões de linha simultâneos — operação onde vende dólares com compromisso de recompra futura. A medida visa garantir liquidez e evitar disfunções na formação de preços, não necessariamente defender um nível específico de cotação.
O dado de fluxo cambial divulgado na véspera já sinalizava pressão: saída líquida de US$ 7,078 bilhões apenas nos primeiros 18 dias de setembro. A atuação de hoje tenta quebrar a inércia vendedora antes que ela se alimente sozinha.
Cenário fiscal e projeções do BC adicionam tempero local
Se o exterior deu o tom, o doméstico escreveu a letra. O Banco Central revisou para baixo a projeção do PIB de 2026: de 2% para 1,8%. Para 2027, a estimativa é de crescimento ainda mais modesto, 1,4%.
No front fiscal, o governo reduziu a necessidade de bloqueio orçamentário de R$ 17,9 bi para R$ 16,1 bi, mas elevou a previsão de déficit primário efetivo para R$ 80,9 bilhões neste ano. O mercado lê o conjunto como sinal de que a âncora fiscal segue frouxa, o que exige juros altos por mais tempo — justamente quando o Fed sinaliza manutenção de taxas elevadas.
Petróleo: a variável que pode mudar tudo em março
O salto de 3,4% no Brent para US$ 106,60 não é apenas geopolítica. A incerteza sobre o Estreito de Ormuz mantém prêmio de risco na commodity. Se o petróleo se estabilizar acima de US$ 100, a inflação importada via combustíveis volta ao radar do Copom, dificultando qualquer corte de Selic no primeiro trimestre.
A tarde trouxe alívio parcial com rumores de negociações EUA-Irã, mas a falta de confirmação oficial mantém o prêmio de guerra embutido no preço. Para o investidor, a equação é simples: petróleo caro + dólar forte = inflação resistente.
O que observar daqui para frente
A combinação de juros americanos em patamar de 2007, petróleo pressionado e incerteza fiscal doméstica cria um “triângulo de ferro” para o real. O nível de R$ 5,20 virou resistência técnica e psicológica: se for rompido com volume, o caminho para R$ 5,30 se abre rapidamente.
Na agenda imediata, três vetores mandam no preço: leilões do BC (sinal de disposição de defender liquidez), discurso de dirigentes do Fed (qualquer “higher for longer” derruba emergentes) e desdobramentos no Oriente Médio. Quem opera posicionado precisa de stop curto; quem observa, deve esperar a poeira baixar antes de aumentar exposição a risco Brasil.
