A Smart Fit inaugura na próxima segunda-feira (28) sua primeira unidade em Caracas, marcando a entrada no 17º país da rede. A academia ocupará 2.000 m² no Centro Comercial Chacaíto, mas o tamanho do espaço não é o dado mais relevante da operação.
O movimento expõe uma estratégia de expansão que a empresa refinou ao longo de 15 anos: testar o solo com franqueados antes de colocar capital próprio em jogo. A pergunta que fica é até quando o modelo de “entrada cautelosa” vai sustentar o ritmo de dois novos países por ano.
Por que a Venezuela e por que agora
O CEO Diogo Corona acompanha o cenário venezuelano há tempos. O gatilho veio com dados concretos: a inflação desacelerou para 8,9% em agosto, contra 19,9% no mês anterior. Para um negócio que depende de fluxo de caixa previsível e poder de compra da classe média, o número mudou a equação de risco.
São 29 milhões de habitantes concentrados em poucas áreas urbanas — geografia que a Smart Fit domina como poucas. A proximidade cultural com os demais mercados latino-americanos reduz a curva de aprendizado operacional. Não é coincidência que 16 dos 17 países da rede estejam na região.
O tabuleiro de xadrez das franquias
A decisão de entrar via franqueado local não é detalhe burocrático. Dos mais de 2.100 estabelecimentos do grupo, cerca de 80% são unidades próprias. A meta é manter essa proporção até dezembro. As franquias funcionam como “batedores”: entram primeiro, validam o modelo, absorvem o choque regulatório inicial.
Corona resume a lógica em três camadas:
- Países pequenos: 100% franqueados
- Médios: transição para unidades próprias
- Grandes (Brasil, México, Argentina): modelo híbrido permanente
Essa arquitetura explica por que a Venezuela, apesar da população expressiva, estreia no formato de franquia. O mercado ainda carrega incertezas cambiais e institucionais que não justificam alocação direta de capital no primeiro ciclo.
O primeiro passo fora do quintal
Marrocos, inaugurado neste ano, foi o ensaio geral para operar fora da América Latina. O norte da África ofereceu estabilidade macroeconômica, baixa penetração de academias e espaço para crescer — os mesmos critérios que guiaram a entrada no México em 2011.
Mas Corona é taxativo: a América Latina continua sendo o motor principal. A região concentra vantagens competitivas acumuladas — supply chain compartilhado, marca conhecida, equipe de expansão com conhecimento local. Abrir uma nova frente no exterior custa caro em atenção gerencial.
Números que sustentam a tese
O primeiro semestre fechou com lucro líquido de R$ 411 milhões, alta de 24% na comparação anual. A base de academias saltou de 1.818 para 2.170 unidades — crescimento de 19% em doze meses. A receita líquida de 2024 atingiu R$ 7,24 bilhões.
O reconhecimento de marca acompanha a expansão física. Pesquisa Datafolha de fevereiro colocou a Smart Fit como a melhor rede de São Paulo pela décima vez consecutiva, com desempenho mais forte entre jovens de 16 a 25 anos. O público que entra cedo tende a renovar por décadas.
O que observar nos próximos trimestres
A Venezuela será o termômetro para duas variáveis críticas: a velocidade de maturação de uma unidade franqueada em ambiente de alta volatilidade e a capacidade do grupo de converter aprendizado local em expansão própria no médio prazo. Se o modelo funcionar, Colômbia e Peru — onde a rede já tem escala — podem receber reforço de capital próprio mais agressivo.
Outro ponto de atenção: a transição de comando. Diogo Corona assumiu em março com a missão explícita de liderar a expansão geográfica. O ritmo de dois países por ano (Marrocos e Venezuela em 2024) testa se a governança consegue escalar sem diluir a disciplina de capital que o próprio CEO defende como inegociável.
Para investidores e concorrentes, o sinal claro é que a Smart Fit trata expansão internacional como produto de prateleira: padronizado, testado em pequena escala e só então escalado com capital próprio. A Venezuela é apenas o último capítulo de um manual que a empresa vem escrevendo desde a Cidade do México.
