Os maiores nomes do empresariado brasileiro têm um recado direto para quem assumir a Presidência: esqueça a canetada mágica. O ajuste fiscal é urgente, mas sem credibilidade prévia ele nasce morto. O que exatamente essa confiança exige na prática?
A ilusão da bala de prata
Arminio Fraga, da Gávea Investimentos, resume o consenso: o próximo mandato deve começar “trazendo uma certa paz”. Não há medida única que resolva a equação. Leandro Vilain, futuro presidente da Febraban, reforça: “Se fosse fácil, estava feito”. A taxa de juros, alerta ele, será consequência direta da seriedade fiscal — e de variáveis externas imprevisíveis, como guerra e petróleo.
Isaac Sidney, atual líder da Febraban, propõe uma agenda dupla imediata: investimentos com produtividade e contenção fiscal. “Quanto mais crível o conjunto de ações, melhor assimiladas elas serão”, diz. A meta é ancorar expectativas de inflação e a trajetória da dívida com transparência e poucas exceções.
O que o mercado realmente precifica
Para Bruno Funchal, CEO da Bradesco Asset, a prioridade zero é quebrar a percepção de que a dinâmica fiscal é insustentável. O Orçamento precisa ficar “mais saudável, moderno e com liberdade” — hoje, ele considera o instrumento excessivamente rígido. Piero Minardi, da Lazuli Partners, vai além: “O novo governo não pode terminar o mandato sem fazer uma reforma séria da Previdência”.
Juros, agro e o custo do dinheiro
Eduardo Monteiro, da Mosaic, traz o impacto setorial: “Um dos grandes problemas da economia brasileira é a taxa de juros”. O agronegócio enfrenta escassez de crédito diretamente atrelada ao custo do dinheiro. A solução, defende, passa por uma reforma fiscal rigorosa com gestão eficiente de gastos, o que equaliza a política monetária em cadeia.
Além do fiscal: trabalhismo, bets e instituições
A pauta não para no Ministério da Fazenda. Executivos de setores variados elencam gargalos que travam a competitividade:
- Reforma trabalhista profunda: Alessandro Cunha (Aviva) critica o modelo único “arcaico” e pede flexibilidade para empresas e trabalhadores.
- Regulamentação das bets: Donovan Ferreti (Ticketmaster) alerta que apostas drenam consumo de entretenimento, viagens e gastronomia. Exige controle rigoroso da revenda de ingressos e fraudes online.
- Fortalecimento institucional: Camila Pantera (N5X) avisa: CVM, Banco Central e Aneel precisam de autonomia real para implementar políticas. Prioriza também a integração do mercado de gás natural para segurança energética.
Tecnologia e segurança jurídica: o outro gargalo
Bruno Rossini, da 99, resume o desafio da inovação: “Criar bases para que o investimento seja frutífero e manter estabilidade jurídica”. Sem previsibilidade regulatória, a digitalização de serviços e a atração de capital de risco seguem travadas.
O que observar daqui para frente
O recado unificado é claro: o primeiro ano do próximo mandato será definidor não pelo volume de medidas, mas pela sequência delas. Primeiro, sinalização inequívoca de compromisso fiscal e institucional. Segundo, execução de reformas estruturais (Previdência, tributária, trabalhista) que deem previsibilidade ao custo de capital. Para o investidor e o gestor, o termômetro não será o discurso de posse, mas a composição da equipe econômica e a velocidade da tramitação das PECs de ajuste no Congresso. Quem esperar a “canetada” para se posicionar, chegará atrasado.
