O Comitê de Governança e Gestão de Riscos da CVM se reúne amanhã para discutir recomendações ignoradas há meses sobre o Banco Master. A convocação ocorre sob ordem direta do ministro Flávio Dino, após mensagens comprometedoras virem à tona.
Por que a autarquia demorou seis meses para colocar o tema em pauta? A resposta pode redefinir a supervisão de mercado nos próximos anos.
O gatilho que forçou a convocação
Mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro revelam articulação nos bastidores da indicação de Otto Lobo à presidência da CVM. O advogado Ciro Soares escreveu que Lobo “gosta muito” do ex-banqueiro e o tratava pelo apelido “Leãozinho da montanha”.
O ministro do STF Flávio Dino determinou, nesta quinta-feira (24), a abertura de inquérito sobre uma denúncia anônima de 2022. O FGC encaminhou o caso à CVM, que o arquivou sem investigação aprofundada. Agora, a autarquia deve apresentar o processo, as justificativas do arquivamento e os nomes dos responsáveis pela análise.
Em nota, a CVM afirmou estar “mobilizada para atender de forma tempestiva a decisão do Exmo. Sr. Min. Flávio Dino.”
O que a auditoria encontrou — e ninguém tratou
O Grupo de Trabalho examinou 314 processos ligados ao mesmo grupo econômico. Os números expõem um padrão sistêmico:
- 73% (230 casos) com falhas na divulgação de informações ao mercado
- 32% (100 casos) com deficiências de compliance
- Indícios de fraudes contra investidores, uso de informação privilegiada e manipulação de mercado
Foram emitidos 65 ofícios de alerta contra o grupo. Nenhum evoluiu para medidas de supervisão mais rigorosas. A mesma conduta ora recebia apenas um ofício, ora virava processo e acusação — sem critério uniforme.
O vácuo de gestão que durou meio ano
Quando o GT apresentou suas conclusões, em março, o plano era claro: reuniões bimestrais do comitê de riscos para monitorar a implementação das medidas. Nenhuma aconteceu.
Internamente, a ausência de convocações é lida como sinal de que o tema não é prioridade da gestão Otto Lobo. A reunião de amanhã será a primeira — e ocorre apenas após a intervenção do STF.
As recomendações do GT previam ações de curto, médio e longo prazo para aprimorar processos e governança. Até agora, nenhuma foi colocada em prática de forma estruturada.
O que observar daqui para frente
Três frentes vão ditar os próximos capítulos: a resposta da CVM ao inquérito de Dino, o andamento das recomendações do GT e a apuração sobre a interferência política na nomeação da presidência da autarquia.
Para investidores e participantes do mercado, o sinal é claro: a supervisão de conglomerados financeiros complexos segue fragilizada. A reunião de amanhã dirá se a CVM consegue retomar a iniciativa — ou se continuará reagindo apenas sob pressão externa.
O prazo para respostas ao STF é curto. A credibilidade da autarquia, também.
