Economia

R$ 1,2 bi por usina: o plano para lucrar na entressafra da cana

A StoneX está estruturing projetos para converter usinas de cana-de-açúcar em plantas flexíveis, capazes de produzir etanol de milho nos meses em que a moagem para. O investimento por unidade varia de R$ 400 milhões a R$ 1,2 bilhão, podendo superar esse teto em complexos maiores. A ideia é simples: transformar ativos ociosos em receita constante.

Hoje, uma usina de cana típica opera entre janeiro e junho. Depois, fica até sete meses parada esperando a nova safra. Esse vazio operacional consome capital fixo sem gerar retorno. O modelo proposto preenche essa lacuna com o grão, mantendo a indústria rodando o ano inteiro.

Por que o milho mudou a equação do setor

A expansão do etanol de milho no Brasil não é mais uma aposta — é uma curva de crescimento consolidada. Dados da Conab para a safra 2026/27 projetam 11,91 bilhões de litros do biocombustível a partir do cereal, alta de 17% sobre o ciclo anterior.

Esse volume representaria cerca de 30% de toda a produção nacional de etanol, somando cana e milho. A participação era residual há poucos anos; hoje, redefine a geografia e a economia do combustível renovável no país.

O raio-x da conversão: três etapas decisivas

A StoneX não apenas financia; ela desenha a viabilidade junto à Aplus Engenharia e à Prata Biosoluções. O processo segue uma trilha técnica e financeira rígida:

  • Disponibilidade e custo do milho: análise da logística de suprimento na região da usina;
  • Viabilidade industrial: avaliação do que pode ser reaproveitado da estrutura existente (caldeiras, fermentação, destilação, tratamento de efluentes);
  • Estruturação financeira: modelagem de payback, captação de dívida e equity para bancar a adaptação.

Cada projeto exige estudo dedicado. Variáveis como safra, preço do grão e custo de capital ainda estão sendo levantadas caso a caso.

O modelo flex já funciona — e dá pistas do que vem por aí

Não se trata de teoria. Segundo a Unica, 12 usinas flex já operam no Brasil — dez no Centro-Sul e duas no Nordeste. Juntas, responderam por até 6% do etanol nacional no ciclo 2025/26, com volume entre 1,8 bilhão e 2,2 bilhões de litros.

O Mato Grosso lidera essa transição. No estado, as fronteiras agrícolas da cana e do milho se sobrepõem, criando a logística ideal para o modelo híbrido. São Paulo, foco inicial da StoneX, segue o mesmo racional: proximidade entre lavouras e infraestrutura industrial instalada.

O “próximo boom” e a retomada do protagonismo

Para Felipe Prata, CEO da Prata Biosoluções, a adaptação representa o próximo grande ciclo de valor do setor sucroenergético. A leitura é de que a ociosidade forçada pela sazonalidade da cana tirou competitividade da indústria nos últimos anos.

Ao integrar o milho, a usina deixa de ser sazonal para se tornar uma plataforma de biocombustíveis perene. Isso melhora a alavancagem operacional, dilui custos fixos e reabre espaço para investimentos em eficiência e descarbonização — temas centrais para quem olha o setor com ótica de longo prazo.

O que observar daqui para frente

O movimento ainda está na fase de estruturação, mas a sinalização de capital — até R$ 1,2 bi por ativo — indica apetite real. Investidores e gestores de usinas devem monitorar três variáveis nos próximos trimestres: o custo de oportunidade do milho nas regiões-alvo, a velocidade de aprovação dos projetos de crédito verde e a definição do marco regulatório do combustível do futuro (Combustível do Futuro), que pode criar incentivos adicionais para plantas de baixa intensidade de carbono. Quem estruturar a transição agora tende a capturar a curva de valor antes que ela se torne padrão de mercado.