Justiça

Gangue da Pedrada: Por que motoristas de app agora imploram “guarde o celular”

Motorista de aplicativo com celular escondido no painel do carro em rua movimentada de São Paulo
Motoristas pedem que passageiros guardem celulares para evitar ataques da "gangue da pedrada" em SP.

Motoristas de aplicativo em São Paulo adotaram uma regra não oficial: pedir que passageiros escondam o celular no trânsito parado. A razão é o avanço da “gangue da pedrada”, que já soma 1.602 ocorrências só nos primeiros sete meses de 2026, segundo a Secretaria da Segurança Pública.

O problema, antes concentrado no centro, migrou para bairros como Grajaú, Cidade Tiradentes e Artur Alvim. Para quem vive da direção, a conta não fecha: o prejuízo do vidro quebrado e o trauma psicológico ficam no colo do trabalhador.

O mapa do risco saiu do centro e ganhou a periferia

Levantamento baseado em dados oficiais mostra que a região da Praça Dom José Gaspar ainda concentra cerca de 10% dos ataques. Contudo, a expansão geográfica assusta. Criminosos perceberam que congestionamentos e semáforos longos transformam qualquer veículo parado em alvo estático, previsível e lucrativo.

Especialistas em segurança pública explicam que a dinâmica é simples: o bandido age a pé, quebra o vidro, puxa o aparelho e some por vielas antes da chegada da polícia. A vulnerabilidade social e a falha no mapeamento policial criam um ciclo de reincidência difícil de quebrar apenas com repressão pontual.

Prejuízo financeiro e “Band-Aid” nas plataformas

Quando o vidro estilhaça, quem paga a conta é o motorista. As plataformas — Uber e 99, representadas pela Amobitec — limitam-se a enviar mensagens de solidariedade. Não há política oficial que obrigue o passageiro a guardar o telefone, nem cobertura para o dano material durante a corrida.

  • Custo do reparo: Sai do bolso do condutor, que ainda perde diárias de trabalho.
  • Impacto psicológico: Relatos indicam medo constante ao entrar em perímetros de risco.
  • Resposta das apps: Investimento em tecnologia e integração com o 190 em alguns estados, mas sem diretriz clara para São Paulo em 2026.

Presidente da Amasp, Eduardo Lima de Souza resume: “Restringir local e avisar passageiros é só um Band-Aid onde deve-se fazer uma cirurgia cardíaca”.

A corrida armamentista: película antivandalismo vs. lanças

Para dificultar o acesso, motoristas passaram a instalar película antivandalismo (multicamadas de poliéster que mantêm os cacos unidos). A resposta dos criminosos foi imediata: passaram a usar pontas de metal, semelhantes a lanças de portão, para perfurar a barreira e alcançar o interior.

Rafael Bezerra, motorista há seis anos, conta que o alerta virou rotina: “Peço com educação: ‘Pode guardar o celular só por esse trecho?’. Quase todos entendem quando explico que o vidro quebra e o aparelho some em segundos”. Ele próprio dirige com vidros fechados e atenção redobrada, mas admite o dilema: “Meu celular precisa ficar exposto para o GPS. Protejo o passageiro, mas fico vulnerável”.

O que dizem os especialistas e o que falta fazer

Para o criminalista Jaime Fusco, trata-se de “criminalidade de oportunidade” alimentada pela impunidade urbana. A solução, segundo ele e a associação de motoristas, passa por três eixos que vão além do volante:

  • Uso efetivo das câmeras do programa Smart Sampa pela Guarda Civil.
  • Investigação rigorosa da cadeia de receptação de smartphones roubados.
  • Políticas públicas de acolhimento para reduzir o recrutamento nas periferias.

Enquanto o poder público não ataca a raiz, a adaptação segue individual. Márcio de Souza, que atua também no transporte executivo, mudou a conduta após ver o carro da frente ser atacado em segundos: “Se quebram meu vidro, além do conserto eu fico sem trabalhar. Prefiro avisar e parecer chato a parar na oficina”.

O que observar daqui para frente

O cenário exige monitoramento de dois vetores: a migração dos ataques para novas zonas da capital e a eventual criação de um protocolo oficial pelas plataformas — hoje inexistente — que permita cancelar corridas de risco sem penalidade ao motorista. Para investidores e gestores de frota, o custo invisível da insegurança (manutenção, rotatividade, seguro) já bate na planilha. A pergunta que fica é: até quando a “regra da boa convivência” vai substituir a responsabilidade contratual?