Economia

O segredo que ninguém conta: por que o ajuste fiscal não basta para o próximo governo

Executivos e economistas debatem confiança e ajuste fiscal em evento fechado no Brasil
Líderes como Arminio Fraga e Isaac Sidney discutem prioridades econômicas para o próximo governo

Executivos de grandes empresas sinalizam que a prioridade número um do próximo governo não é cortar gastos, mas reconstruir a confiança perdida. Sem esse ativo, qualquer medida fiscal nasce fraca e o custo de capital permanece alto. A pergunta que fica é: quais sinais concretos separarão discurso de execução?

O consenso inesperado: paz antes de planilhas

Em evento fechado em São Paulo, nomes como Arminio Fraga, Leandro Vilain e Isaac Sidney convergiram para um mesmo diagnóstico: o país vive uma crise de credibilidade que paralisa investimentos. Não existe “bala de prata” nem canetada resolutiva no dia 1º de janeiro.

Fraga foi direto: o governo precisa trazer “uma certa paz” e uma visão de futuro acompanhada de ações concretas. Vilain, futuro presidente da Febraban, completou que a taxa de juros será consequência direta da clareza fiscal — e da imprevisibilidade externa, como guerra e petróleo.

Sidney, atual presidente da Federação, propôs duas agendas simultâneas: investimentos com produtividade e contenção fiscal crível. Quanto mais confiável o pacote, menor o prêmio de risco exigido pelo mercado.

O que está na mira: Previdência, juros e rigidez orçamentária

Bruno Funchal, da Bradesco Asset, alertou que a percepção de insustentabilidade fiscal precisa ser quebrada nos primeiros meses. O Orçamento atual, segundo ele, é “muito rígido” e não conversa com a realidade da população.

Piero Minardi, da Lazuli Partners, foi taxativo: nenhum mandato deve terminar sem uma reforma previdenciária séria. Eduardo Monteiro, da Mosaic, conectou os juros altos à escassez de crédito para o agronegócio — setor que carrega a balança comercial.

André Porto, da Amobitec, resumiu: sem equilíbrio fiscal, não há estabilidade para crescimento sustentável.

Além do fiscal: reformas que travam setores inteiros

A conversa escapou do Ministério da Fazenda e invadiu gabinetes setoriais. Veja o que lideranças de outros segmentos colocaram na mesa:

  • Trabalhista: Alessandro Cunha (Aviva) defende modernização profunda das leis, hoje “arcaicas” e engessadas em modelo único.
  • Apostas e entretenimento: Donovan Ferreti (Ticketmaster) aponta que a regulamentação das bets drenou consumo de lazer, viagens e restaurantes. Pede controle rigoroso na revenda de ingressos e fraudes online.
  • Energia: Camila Pantera (N5X) exige fortalecimento de CVM, Banco Central e Aneel. Sem instituições fortes, políticas não saem do papel. Prioriza também mercado de gás natural integrado entre estados.
  • Tecnologia: Bruno Rossini (99) quer bases para competitividade e estabilidade jurídica que permitam inovação e digitalização de serviços.

O recado final: credibilidade se mede em entrega, não em promessa

Carlos Ponce de Leon e Sérgio Dávila, da Folha, encerraram o evento reforçando que alcance e credibilidade geram audiência qualificada — e que o novo portal C-Level nasce para filtrar o essencial do acessório.

Para o leitor que decide alocação de capital ou estratégia corporativa, o roteiro está dado: observe se o primeiro pacote de medidas ataca a rigidez orçamentária, se a reforma da Previdência entra na pauta do primeiro semestre e se sinais de autonomia do Banco Central e das agências reguladoras aparecem nos primeiros decretos. O resto é ruído.