A Oncoclínicas convocou assembleia extraordinária para decidir se suspende os direitos do fundo Josephina III, dono de 9,91% da companhia. O pedido partiu da gestora Latache, que detém 14,59% do capital, e tem como base uma decisão unânime da CVM de agosto deste ano. O desfecho pode redefinir o controle da empresa enquanto ela tenta reestruturar R$ 5,1 bilhões em dívidas.
O fundo alvo ficará impedido de votar na própria punição. A medida vale até que a obrigação reconhecida pela autarquia seja integralmente cumprida. Enquanto isso, a rede de oncologia — que opera 142 unidades em 12 estados — segue em recuperação extrajudicial após prejuízo acumulado de R$ 4 bilhões em 12 meses.
Por que a CVM mandou fazer a OPA
Em novembro de 2024, uma reorganização societária tirou a participação da Oncoclínicas de uma estrutura gerida pelo Goldman Sachs e a transferiu para um veículo da Centaurus Capital. O movimento fez o Josephina III ultrapassar o teto de 15% previsto no estatuto. Para a CVM, isso disparou a obrigação de lançar uma Oferta Pública de Aquisição (OPA) aos minoritários, com prêmio.
A Centaurus argumenta que não houve compra nova — apenas mudança de forma de detenção de posição que já detinha desde 2018, antes do IPO. A área técnica da autarquia chegou a concordar, mas o colegiado reverteu o entendimento em 25 de agosto. O fundo anunciou que discorda da decisão e deve contestar.
O que a suspensão muda na prática
Se aprovada, a sanção tira do Josephina III o direito de votar em qualquer matéria — inclusive na própria recuperação extrajudicial. O estatuto da empresa prevê essa penalidade para o acionista que descumprir a obrigação de OPA. O conselho de administração não opinou sobre o mérito: limitou-se a verificar os requisitos formais e convocar a assembleia.
A estrutura acionária atual mostra o peso dos envolvidos:
- Latache (gestora requerente): 14,59%
- Fundos Josephina: 9,91%
- BRB (banco público do DF): 8,66%
- Free float: ~66%
- Tesouraria: 1%
Recuperação de R$ 5,1 bi corre em paralelo
Em julho, a Oncoclínicas pediu recuperação extrajudicial para repactuar dívidas quirografárias e créditos intercompany. O plano já conta com adesão de credores representando 37% do total. A companhia tem 90 dias para atingir o quórum de homologação.
Entre as alternativas na mesa estão injeção de capital pelos acionistas, conversão de dívida em participação, emissão de novos títulos e alongamento de prazos. A disputa pelo controle do Josephina III adiciona uma variável política a uma negociação já complexa.
O fantasma do Banco Master e a queda de 94% da ação
A crise tem raízes na expansão agressiva pós-IPO de 2021, quando a ação estreou a R$ 19,75 — abaixo da faixa indicativa de R$ 22,21 a R$ 30,29. Desde então, o papel acumula desvalorização superior a 94%.
A entrada do Banco Master, do ex-controlador Daniel Vorcaro (preso por investigações de fraude), agravou o quadro. A Oncoclínicas tinha R$ 478,2 milhões aplicados em CDBs da instituição e precisou firmar acordo para resgatar os recursos. No primeiro trimestre de 2026, o fluxo de caixa operacional ficou negativo em R$ 153,1 milhões, e a empresa relatou desabastecimento de medicamentos nas clínicas.
Duas subsidiárias rescindiram contratos built-to-suit recentemente: o Centro Paulista de Oncologia encerrou aluguel na Avenida Angélica (SP), gerando multa de R$ 76 milhões; o Cebrom fez o mesmo em Goiânia, com penalidade ainda em apuração. Ambos os valores entram na recuperação.
O que observar nas próximas semanas
A data da assembleia ainda não foi divulgada, mas deve ocorrer “nos próximos dias”, segundo o fato relevante. Três frentes merecem atenção: o resultado da votação e eventuais questionamentos judiciais pelo Josephina III; o andamento do plano de recuperação extrajudicial e sua adesão pelos credores remanescentes; e eventuais movimentos da CVM para forçar a realização da OPA, independentemente do desfecho societário.
Para quem acompanha o setor de saúde ou tem posição na ação, o jogo agora é duplo: governança e solvência. Quem sair vencendo na assembleia pode ditar o ritmo — e os termos — da reestruturação financeira.
