Economia

R$ 1,2 bi por usina: O plano da StoneX para acabar com a entressafra da cana

StoneX, gigante global de serviços financeiros, está estruturando um projeto para transformar usinas de cana-de-açúcar ociosas em fábricas de etanol de milho durante a entressafra. O investimento por unidade pode variar entre R$ 400 milhões e R$ 1,2 bilhão. A jogada promete resolver o maior gargalo do setor sucroenergético: os sete meses de paralisação forçada.

Por que a entressafra virou oportunidade de ouro

A cana-de-açúcar é sazonal por natureza. A moagem roda de janeiro a junho e, depois, a planta para. Fica esperando a cana crescer para iniciar um novo ciclo. “Tem de esperar a cana crescer novamente para cortar e fazer um novo ciclo. A gente viu a oportunidade de fazer um investimento fabril relevante para que possa operar com milho nessa entressafra”, explica José Luiz Mendes, consultor de estratégia e M&A da StoneX.

O milho entra como peça de encaixe perfeita. Enquanto a cana descansa, o grão mantém a indústria rodando, diluindo custos fixos e gerando receita contínua. É a lógica do ativo ocioso zero aplicada ao agronegócio de larga escala.

O mapa do investimento: São Paulo e Mato Grosso no radar

A concentração inicial dos estudos mira dois polos estratégicos. O interior de São Paulo, coração histórico da cana, e regiões do Mato Grosso onde as fronteiras agrícolas do grão e da cana se tocam. A proximidade logística entre a matéria-prima e a planta industrial dita a viabilidade econômica de cada projeto.

Não existe “tamanho único”. Cada usina exige uma radiografia própria: disponibilidade de milho na safra local, custo de frete, estrutura de recebimento e armazenagem já instalada. Só depois vem a conta do capex.

A engenharia da conversão em três etapas

A StoneX não atua sozinha. A estruturação conta com a Aplus Engenharia, para o viés industrial, e a Prata Biosoluções, para a parte biotecnológica e de processo. O roteiro segue uma trilha rígida:

  • Fase 1: Levantamento da disponibilidade e custo do milho no raio de atração da usina.
  • Fase 2: Análise de viabilidade técnica da adaptação — fermentadores, secadores, tratamento de efluentes e energia.
  • Fase 3: Modelagem financeira, definição de payback e captação de capital para bancar a obra.

Mendes reforça que variáveis como retorno do investimento e cenários de safra ainda estão em levantamento. Não há números fechados de payback divulgados até o momento.

Números que explicam o ‘boom’ do etanol de milho

O movimento não nasceu do vácuo. Dados da Conab mostram que a produção de etanol de milho na safra 2026/27 foi estimada em 11,91 bilhões de litros, alta de 17% sobre o ciclo anterior. Somando cana e milho, o total projetado atinge 41,88 bilhões de litros. Isso coloca o etanol de milho beirando 30% do volume nacional — um salto expressivo em poucos anos.

O modelo “flex” já é realidade no Brasil. Segundo a Unica, 12 unidades operam nesse formato: dez no Centro-Sul e duas no Nordeste. Juntas, responderam por até 6% do etanol nacional no ciclo 2025/26, com produção entre 1,8 bilhão e 2,2 bilhões de litros. O Mato Grosso concentra a fatia mais relevante dessas plantas flex atuais.

O que observar daqui para frente

“É o próximo boom dentro do setor sucroenergético. Essa é a nossa análise, de estudar o milho como alternativa para uma alavancagem setorial em termos de negócios. Pode devolver o protagonismo ao segmento sucroenergético”, projeta Felipe Prata, CEO da Prata Biosoluções.

Para o empresário e investidor, o sinal de alerta está ligado na estruturação financeira. Projetos na casa de R$ 1 bilhão exigem dívida longa e parceiros de equity com apetite para risco agroindustrial. O próximo passo crítico é a assinatura dos primeiros contratos EPC (Engenharia, Suprimentos e Construção) e o fechamento das linhas de crédito. Quem conseguir travar o custo do milho e a logística de escoamento do etanol sai na frente na corrida pela rentabilidade da entressafra.