Tecnologia

Mercado Livre ignora eleições e aposta em remédios e entrega em 60 min

Fernando Yunes, VP do Mercado Livre, anuncia expansão para farmácias e entrega em 60 minutos no evento Mercado Livre Experience
Mercado Livre aposta em varejo farmacêutico e entrega ultrarrápida, independentemente do cenário eleitoral de 2027.

O Mercado Livre decidiu que 2027 não espera pelo calendário eleitoral. Fernando Yunes, vice-presidente executivo e cabeça do comércio da companhia no Brasil, cravou: os planos de expansão seguem intactos, independentemente de quem ocupe o Planalto. A estratégia? Entrar de vez no varejo farmacêutico e comprimir o prazo de entrega para menos de uma hora.

A declaração veio durante o Mercado Livre Experience, evento que reuniu marcas e vendedores em São Paulo. Enquanto o varejo tradicional sangra com o consumo enfraquecido, a plataforma anuncia duas frentes que podem redesenhar a disputa pelo bolso do brasileiro.

Farmácia própria estreia com receita controlada

Nesta sexta-feira (25), a farmácia do Mercado Livre começa a vender medicamentos com prescrição médica. Antibióticos, canetas emagrecedoras e outros itens de controle especial entram no catálogo. Em outubro, redes farmacêuticas de todo o país poderão expor seus estoques na vitrine digital da plataforma.

O movimento mira um mercado de R$ 180 bilhões ao ano, segundo dados do setor, onde a penetração do e-commerce ainda engatinha. Para o consumidor, a promessa é conveniência; para os sellers, acesso a uma base de mais de 50 milhões de compradores ativos.

Entrega em 60 minutos: o novo padrão?

Batizada de Envios Agora, a modalidade cobre produtos de até 15 quilos. A operação roda em fase de testes em bairros paulistanos, com entregadores de qualquer modal — bike, moto, carro. A meta declarada: escalar para toda a capital e, depois, outras metrópoles.

  • Peso máximo: 15 kg
  • Tempo-alvo: ≤ 60 minutos
  • Categorias: todas que couberem no limite
  • Fase atual: piloto em São Paulo

Roberta Donato, VP de marketplace no Brasil, reforça que a rede logística aberta permite capilaridade imediata. Não há frota própria exclusiva; a tecnologia orquestra o match entre pedido e entregador mais próximo.

Varejo tradicional sente o aperto macro

Yunes não nega o cenário adverso. Famílias com orçamento apertado, juros elevados e inflação residual freiam o consumo discricionário. “Não é um setor inteiro na mesma situação”, pondera. A diferença, segundo ele, está na estrutura de custos e na capacidade de adaptação de cada player.

Enquanto Magazine Luiza, Shopee, Amazon, Temu e Shein travam guerra de preços e frete grátis, o Mercado Livre aposta na integração: marketplace + fintech + logística + agora saúde. O lucro líquido do segundo trimestre — US$ 466 milhões (R$ 2,4 bi) — sinaliza que a tese tem lastro.

O que observar nos próximos meses

A adesão das grandes redes farmacêuticas a partir de outubro será o termômetro da nova vertical. Se a conversão repetir o padrão de outras categorias, o marketplace pode se tornar o maior balcão de medicamentos do país sem possuir uma única loja física.

Na logística, a escalabilidade do Envios Agora ditará o ritmo. Se o modelo de 60 minutos sair do piloto para operação plena na Grande São Paulo ainda em 2024, a pressão sobre concorrentes — que hoje prometem same-day ou next-day — sobe mais um degrau.

Para quem toma decisão de negócio, o recado é claro: a empresa de 50 mil funcionários no Brasil não está esperando o ciclo político. Está construindo infraestrutura. O xadrez continua; as peças, porém, mudaram de lugar.