Justiça

R$ 11,6 bi e o Master: o segredo da nova fase da Carbono Oculta…

Agentes da Polícia Federal e Receita Federal em operação contra lavagem de dinheiro no setor de combustíveis
Operação Carbono Oculto investiga esquema de R$ 11,6 bi com mandados em sete estados

O Gaeco e a Receita Federal deflagraram a terceira fase da Operação Carbono Oculto mirando uma engrenagem de lavagem de dinheiro no setor de combustíveis que teria movimentado R$ 11,6 bilhões entre 2021 e 2025. A operação cumpre 29 mandados em sete estados, mas o verdadeiro alcance do esquema assusta pela sofisticação financeira envolvida.

Não se trata apenas de postos de gasolina. A investigação expõe como fintechs, fundos de investimento e até uma usina sucroalcooleira teriam sido usadas para dar aparência lícita a recursos de origem obscura. O fio da meada puxa nomes de peso do mercado financeiro e chega a uma produção cinematográfica polêmica.

A estrutura por trás da Terrana: como o dinheiro “sumia”

O alvo central desta etapa é a Terrana (Tobras Distribuidora de Combustíveis). Segundo o MP-SP, uma teia de empresas sobrepostas foi criada para esconder quem de fato controlava a distribuidora. O modus operandi identificado segue um padrão clássico de layering (estratificação):

  • Recursos entram no sistema via empresas de fachada e fintechs;
  • Passam por uma usina de açúcar e álcool — cerca de R$ 100 milhões teriam transitado por esse elo;
  • Chegam à Terrana com “cara” de investimento legítimo.

Outro ponto sensível envolve R$ 370 milhões em direitos creditórios da distribuidora. Uma financeira do próprio grupo teria adquirido esses ativos por meio de um FIDC (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios), num movimento que, para os investigadores, configura autoempréstimo disfarçado para drenar valor.

O elo com o mercado financeiro: Banco Genial e a Entre Investimentos

A operação salta do setor real para a Faria Lima. Entre os alvos de busca e apreensão está Humberto Arthur Tupinambá Neto, ex-executivo do Banco Genial, além de seus irmãos André e Bruno Tupinambá. O banco informou que Humberto foi destituído em maio de 2026 e que colaborou com as autoridades, além de ter reforçado controles internos e instaurado inspetoria.

Mas a conexão mais explosiva envolve a Entre Investimentos, de Antonio Carlos Freixo Junior, o “Mineiro”. A empresa tem laços diretos com Daniel Vorcaro, controlador do antigo Banco Master. Não por acaso, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, classificou a Entre como “entidade-chave da lavanderia do sistema financeiro nacional” — termo forte, vindo de uma autoridade fazendária, ainda que não constitua sentença judicial.

O fio que liga à cinebiografia de Bolsonaro

Em delação premiada firmada com a PGR, Mineiro admitiu ter enviado recursos ao exterior para financiar o filme “Dark Horse”, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro. O Grupo Entre aparece nos créditos da produção. Esse detalhe transforma a investigação: sai do campo estrito de crimes financeiros e entra no radar do financiamento político e cultural.

A proximidade entre operadores do mercado, financiadores de campanha e produtores culturais desenha um mapa de influência que a força-tarefa agora tenta decifrar com lupa.

O que observar daqui para frente

A terceira fase da Carbono Oculto sinaliza uma mudança de patamar: o foco migrou da origem do dinheiro (combustíveis) para a arquitetura financeira que o branqueava. Três frentes merecem atenção redobrada nos próximos meses:

  • Desdobramentos no Banco Central e CVM: a menção a FIDCs, fintechs e um banco médio (Genial) pressiona reguladores a reverem controles de know your customer (KYC) e monitoramento de operações atípicas em veículos de crédito.
  • Destino da Entre Investimentos: se a tese da “lavanderia sistêmica” se sustentar, o efeito cascata atinge credores, cotistas de fundos e contrapartes do antigo Banco Master — hoje em processo de resolução.
  • Colaboração premiada de Mineiro: o conteúdo integral da delação ainda é sigiloso. Vazamentos ou homologação judicial podem arrastar novos nomes do alto escalão político e empresarial.

Para quem gere risco, compliance ou tesouraria, o recado é claro: estruturas complexas de intermediação financeira, antes vistas como “engenharia tributária”, estão no centro da mira do Ministério Público e da Receita. Revisar contrapartes, rastrear beneficiários finais e documentar a substância econômica de cada elo da cadeia deixou de ser boas práticas — virou questão de sobrevivência regulatória.