As três maiores economias da Europa — Alemanha, Reino Unido e França — figuram entre as sete nações mais vulneráveis à coerção econômica chinesa no planeta. O dado contraria a intuição de que a dependência se concentraria no Sul Global e acende um alerta para quem toma decisões de investimento ou cadeia de suprimentos no continente.
O levantamento, conduzido por pesquisadores da Universidade Nacional de Taiwan em parceria com os think tanks alemães GPPi e Merics, mapeou 184 países usando um modelo computacional que pondera comércio, investimento direto, laços militares e instrumentos de soft power. O recorte temporal começa em 2013, ano da ascensão de Xi Jinping.
Por que democracias ricas lideram o ranking de risco
A Coreia do Sul ocupa o topo global. Na Europa, a Rússia aparece em primeiro lugar — impulsionada pelo salto das exportações para Pequim, que saíram de 1,6% do PIB em 2013 para 5,4% em 2023. Mas o choque está no bloco seguinte: Alemanha, Reino Unido e França superam economias asiáticas, africanas e latino-americanas historicamente atreladas a projetos chineses de infraestrutura e mineração.
George Yin, pesquisador sênior do Centro de Estudos sobre a China da universidade taiwanesa, resume a surpresa: a distância geográfica em relação ao alcance militar chinês não protege a Europa. A interdependência comercial e tecnológica fala mais alto.
O gatilho que paralisou fábricas no Ocidente
Em 2025, a China restringiu exportações de ímãs de terras raras — insumo crítico para motores de veículos elétricos e equipamentos de defesa. O efeito foi imediato: linhas de montagem nos Estados Unidos e na União Europeia beiraram a paralisação. A medida foi resposta direta à elevação tarifária de Donald Trump para 145% sobre produtos chineses.
Desde então, os dois gigantes negociaram tréguas temporárias. A mais recente, fechada em novembro, foi prorrogada até janeiro de 2026, coincidindo com a visita de Xi Jinping a Washington para reunião de alto nível com Trump.
O custo da “desarriscagem” que mal começou
A União Europeia rotulou a China como rival estratégico em 2019. Desde então, o índice mostra impacto “modesto” na redução da exposição. Ursula von der Leyen classificou o déficit comercial diário de 1 bilhão de euros com Pequim como “insustentável”.
Segundo estimativa da EY-Parthenon, o bloco europeu, somado a EUA e Reino Unido, precisaria injetar US$ 23,6 trilhões até 2050 para eliminar a dependência chinesa em setores estratégicos — indústria e tecnologia no topo da lista.
Quem recuou e quem mergulhou mais fundo
- Reino Unido, Noruega, Suíça e Suécia reduziram exposição relativa; a Suécia fechou todos os Institutos Confúcio em 2020 após atrito diplomático.
- Espanha (5ª mais exposta da Europa) viu importações chinesas quase dobrarem desde 2013.
- Irlanda registrou salto no estoque de investimento direto chinês — quase US$ 20 bilhões em 2025 —, concentrado em farmacêutica e tecnologia.
O que observar daqui para frente
O modelo atribui peso elevado ao investimento estrangeiro direto — vetor que responde mais lento que fluxos comerciais, mas cria amarras estruturais de longo prazo. Para o executivo ou investidor, a leitura prática é clara: decisões de nearshoring, diversificação de fornecedores e alocação de capital em P&D própria deixam de ser opção estratégica e viram condição de sobrevivência competitiva. O próximo ciclo de revisão de cadeias globais separará quem antecipou o risco de quem apenas reagiu.
