O Banco Central do Brasil e o Banco Central Europeu deram o pontapé oficial para avaliar a conexão direta entre o Pix e o TIPS, a rede de pagamentos instantâneos da zona do euro. A iniciativa pode eliminar a necessidade de intermediários caros e lentos nas transações entre os dois blocos. O anúncio aconteceu nesta terça-feira, mas os detalhes técnicos ainda são guardados a sete chaves.
O que muda para quem envia e recebe do exterior
Hoje, uma transferência entre Brasil e Europa costuma levar de um a três dias úteis. Envolve bancos correspondentes, taxas de câmbio ocultas e o sistema SWIFT. A interligação direta promete liquidar tudo em segundos, 24 horas por dia, sete dias por semana.
Para o empresário que importa insumos da Alemanha ou exporta serviços para Portugal, o ganho é duplo: previsibilidade de caixa e redução de custos bancários. O BC estima que a economia com tarifas e spread cambial pode chegar a dois dígitos percentuais em operações de varejo e pequenas empresas.
Como funciona a arquitetura por trás da novidade
O estudo não cria um novo sistema. Ele testa a “ponte” entre duas infraestruturas públicas já consolidadas. De um lado, o Pix, com mais de 150 milhões de usuários e 40 bilhões de transações só em 2023. Do outro, o TIPS (TARGET Instant Payment Settlement), que processa pagamentos em euros entre bancos da zona do euro em menos de 10 segundos.
A avaliação cobre quatro frentes simultâneas:
- Técnica: compatibilidade de APIs, mensageria (ISO 20022) e cibersegurança.
- Operacional: horários de funcionamento, janelas de liquidação e contingência.
- Jurídica: compliance, LGPD, GDPR e prevenção à lavagem de dinheiro (AML/KYC).
- Negócio: modelo de precificação, governança compartilhada e adoção pelos participantes.
O entrave cambial que ninguém comenta
Existe um “porém” técnico crucial: o Pix liquida em reais. O TIPS liquida em euros. A conexão direta exige um mecanismo de conversão de moeda (FX) instantâneo e transparente integrado à rota. Sem isso, a liquidação continua dependendo de tesourarias de bancos ou market makers, o que reintroduz atraso e custo.
Fontes próximas às negociações indicam que o modelo preferido prevê provedores de liquidez (LPs) competitivos ofertando cotação em tempo real dentro da própria mensagem de pagamento. É o mesmo conceito que já roda em testes no projeto Nexus, do BIS, mas aplicado bilateralmente.
Prazo e próximos passos para o mercado
A fase de avaliação não tem data de validade definida, mas o cronograma interno prevê entregas parciais a cada trimestre. A expectativa otimista do setor aponta para um piloto restrito (sandbox regulatório) ainda em 2025, envolvendo grandes bancos dos dois lados.
Enquanto o piloto não sai, a recomendação para tesourarias e fintechs é mapear volumes atuais de correntes Brasil-Europa. Quem tiver dados organizados de contrapartes, frequência e ticket médio sairá na frente na hora de conectar-se à nova ferrovia financeira.
O que observar daqui para frente
Fique atento às consultas públicas que o BC deve abrir sobre o arcabouço regulatório cambial para pagamentos instantâneos transfronteiriços. A definição de quem pode atuar como provedor de liquidez (banco, corretora, fintech) ditará a competitividade do spread final. Outro gatilho: a adesão de outros países do Eurosistema ao TIPS — hoje nem todos os membros participam ativamente. Quanto maior a rede europeia conectada, maior o efeito de rede para o usuário brasileiro.
