Economia

O segredo que ninguém conta: diesel dos EUA pode sumir e o Brasil vai pagar a conta

Navio-tanque carregando diesel em porto americano com bandeira dos EUA e Brasil ao fundo
Brasil importa 80% do diesel dos EUA e pode enfrentar escassez se Trump cortar exportações

Donald Trump ameaça fechar a torneira das exportações americanas de diesel — e o Brasil, que depende dos EUA para 80% do que importa, pode ficar na mão justamente no mês de maior consumo do ano. A declaração do republicano, feita durante encontro com Volodimir Zelenski, acendeu um alerta vermelho em distribuidoras, importadores e no próprio governo.

O país importa cerca de 30% do diesel que consome. Em setembro, quatro em cada cinco litros comprados lá fora saíram de refinarias americanas. A dependência explodiu depois que a Rússia, antigo grande fornecedor, cortou embarques diante de ataques ucranianos a suas instalações.

O que Trump disse — e por que o mercado não dorme tranquilo

“Eu já disse que não devemos exportar diesel”, afirmou o ex-presidente a repórteres. A ideia seria uma suspensão temporária para derrubar o preço interno nos EUA. Mas a medida depende de estudos sobre o impacto na produção de gasolina nas refinarias americanas — o que deixa uma janela de incerteza aberta.

Executivos de grandes distribuidoras ouvidos reservadamente demonstram ceticismo: acreditam que as próprias petroleiras exportadoras judicializariam a decisão. Ainda assim, ninguém descarta o risco. “Todos estamos preocupados”, resumiu Felipe Perez, especialista em refino da S&P Global, durante evento no Rio.

Outubro garantido, novembro é a incógnita

A Petrobras encomendou 650 milhões de litros para outubro — volume suficiente para honrar seus contratos. A ANP e o Ministério de Minas e Energia atestam: o mês que vem está coberto. O problema é o que vem depois.

  • Consumo sazonal: novembro marca o pico do escoamento da safra e do plantio da próxima — demanda máxima no campo.
  • Concorrência europeia: inverno no hemisfério norte puxa a disputa global pelo produto.
  • Preço recorde: a paridade de importação bateu perto de R$ 7 o litro em alguns portais, mais que o dobro do início do ano.

Mesmo com o subsídio federal de R$ 2,12 por litro, a defasagem persiste. Na abertura desta quarta, o diesel nas refinarias da Petrobras custava R$ 3,44 a menos que a paridade medida pela Abicom. Ou seja: mesmo subsidiado, importar sai R$ 1,32 mais caro por litro que produzir aqui.

Efeito cascata no bolso e na logística

Importadores privados já reduzem compras diante da conta que não fecha. Distribuidoras regionais — clientes diretos dos importadores — sentem o aperto no repasse. A Vibra Energia, maior do setor, diz não acreditar na concretização da ameaça, mas admite: já busca diversificar fontes de suprimento.

O cenário é de estoque justo, custo alto e dependência geográfica concentrada. Qualquer ruído logístico — furacão no Golfo do México, greve portuária, decisão política em Washington — vira risco imediato de desabastecimento pontual.

O que observar daqui pra frente

Três variáveis ditam o próximo mês: a evolução dos estudos técnicos nos EUA sobre o impacto da medida na produção de gasolina, a resposta das petroleiras americanas via justiça e o comportamento do prêmio de importação nos portos brasileiros. Se a paridade seguir acima de R$ 6,50, a pressão por reajuste interno ou ampliação do subsídio vira inevitável. O campo não para — e o tanque não pode secar.