Economia

Data centers: o motor do PIB que vai secar sua torneira e encarecer a luz

Data center moderno com servidores iluminados contrastando com torneira seca e medidor de energia alto
Data centers impulsionam PIB, mas aumentam contas de luz e água para a população

Os data centers vão puxar o crescimento global em 2025, mas a conta chega na forma de contas de luz e água mais caras para a população. É o que revela a nova pesquisa do Fórum Econômico Mundial com 36 economistas-chefes das maiores instituições financeiras do planeta.

O relatório, divulgado nesta terça (22), expõe uma contradição explosiva: a mesma infraestrutura que sustenta a revolução da IA torna-se o principal foco de tensão social dos próximos anos.

O otimismo tem dados concretos

Dos economistas consultados — entre eles nomes do Deutsche Bank, UBS, Barclays, Bradesco, Itaú Unibanco, Banco Mundial e FMI —, 78% afirmam que investimentos em data centers impulsionarão parcela significativa do PIB global nos próximos meses.

Nos Estados Unidos, cerca de 1 ponto percentual do crescimento de 2025 já é atribuído exclusivamente a aportes ligados à inteligência artificial. Praticamente todos (97%) esperam aceleração na adoção da tecnologia, e 69% projetam ganhos relevantes de produtividade, comparáveis ao impacto histórico da eletrificação.

A resistência que ninguém previa

Mas há um porém de tamanho gigantesco: 79% dos especialistas preveem forte oposição de comunidades locais à construção de novos centros de dados. Nos EUA, pesquisa do instituto Gallup citada no documento mostra que três quartos da população rejeitam essa infraestrutura em suas regiões.

O motivo é direto no bolso. A maioria dos economistas espera que a expansão eleve:

  • Preço da eletricidade para outros consumidores (78%)
  • Custo da água para a população (58%)

Nos próximos cinco anos, os data centers devem responder por 55% do crescimento da demanda por energia nos Estados Unidos.

Empregos? A conta não fecha

Outro ponto que derruba narrativas oficiais: 61% dos economistas-chefes não esperam que o boom de data centers gere criação significativa de vagas no mundo. A infraestrutura é intensiva em capital, não em mão de obra.

O cenário macro melhora, mas riscos persistem

Forte do tema IA, o relatório traz radiografia mais ampla. A expectativa de piora na economia global caiu de 89% (maio) para 45% agora. A inflação assusta menos: só 50% veem alta de preços à frente, contra 94% na pesquisa anterior.

Os principais riscos para os próximos 12 meses, segundo os entrevistados:

  • Conflitos geopolíticos (97%)
  • Correção em preços de ativos financeiros (58%)

O colchão fiscal que amorteceu crises desde 2020 encolhe. Governos enfrentam aperto orçamentário e têm menos margem para estímulos diante de novos choques.

Custo de vida segue pressionado

Mesmo com emprego e produção resistentes, a confiança das famílias continua fraca. A explicação está na combinação de renda estagnada com preços em alta. As projeções para os próximos 12 meses:

  • Alimentos: 88% veem alta
  • Eletricidade: 83% veem alta
  • Transporte: 77% veem alta

Para conter o avanço, a aposta dos economistas é que governos priorizem redução de impostos sobre itens essenciais e subsídios ao consumo.

Mapa regional: quem sobe, quem desce

Índia e Sudeste Asiático lideram as avaliações de crescimento. A Europa segue como a região mais fraca. A China piorou: consumo interno e investimentos patinam, apesar de exportações e manufatura de alta tecnologia resilientes.

A América Latina e o Caribe surpreenderam para melhor: 80% dos economistas esperam expansão moderada ou forte nos próximos 12 meses, ante 67% em maio.

O que observar daqui para frente

Apesar da fragmentação geoeconômica projetada por 77% dos especialistas, o comércio global deve se adaptar: dois terços preveem alta no volume de trocas mundiais, o dobro da expectativa de janeiro.

O ponto crítico para empresários e investidores: a tensão entre infraestrutura de IA e custos locais não é risco futuro — é realidade presente. Quem depende de energia barata ou opera em regiões com escassez hídrica precisa mapear exposição regulatória e comunitária agora. O próximo choque de custo pode vir não do mercado, mas do vizinho que não aceita mais pagar a conta do data center ao lado.