O número de empreendedores brasileiros construindo startups globais fora do país saltou de 400 para 450 em apenas um ano, segundo mapeamento da Endeavor. Metade deles escolheu os Estados Unidos — e a Califórnia sozinha concentra 89 nomes. O movimento não é fuga: é estratégia de sobrevivência e escala.
O deserto depois da Série A
Otávio Miranda conhece o abismo. Cofundador da Gabriel no Brasil, ele acabou de abrir a Ephemeral em São Francisco. A razão é direta: após captar a Série A no mercado local, o empreendedor entra num vácuo de capital de growth.
— No Brasil, o investidor pergunta se o negócio fica de pé. Em São Francisco, ele quer saber o quão gigante pode ficar — resume Miranda.
Essa diferença de mentalidade explica por que dois a três deals por ano concentram quase todo o cheque grande disponível no país. Quem quer crescer além do teto doméstico precisa de combustível em dólar.
Casos que provam a tese
A Brex, de Henrique Dubugras e Pedro Franceschi, virou o case referência: vendida por US$ 5,15 bilhões ao Capital One. Mas a lista de scale-ups brasileiras com tração real lá fora cresce rápido:
- Tractian: metade da receita já vem dos EUA; um dos fundadores se mudou para comandar a operação
- Trace Finance, Resend, Jumpstart: crescimento robusto em mercados internacionais
- Wellhub: unicórnio presente em 18 países; Cesar Carvalho mudou-se para Nova York durante a pandemia
- Nubank: maior banco digital do mundo anunciou entrada nos EUA com Cristina Junqueira morando em Miami
O dinheiro segue o fundador
A Monashees batizou a tese de “Global Latam” e inaugurou escritório em São Francisco em abril. A sócia Fabíola Quinzanos comanda a operação e já fechou quatro investimentos: Music AI, Slope, Astro e Facio.
— Interagimos diariamente com comunidades de empreendedores, pesquisadores de mestrado e doutorado com intenção de empreender — diz Quinzanos.
A Valutia, gestora nascida em 2023 sob a mesma tese, captou US$ 30 milhões para o novo fundo — mais que o dobro do veículo anterior. Portfólio inclui Nomo, Company Hero, Movedot e também a Music AI.
O muro do “go to market” americano
Expandir não é trivial. A Digibee “comeu muita pedra” ao levar o negócio para os EUA em 2022, segundo o CEO Rodrigo Bernardinelli. O mercado endereçável imenso dificulta a construção do time de vendas e a reputação leva tempo.
A virada veio três anos depois, com a aquisição da Vertify — especialista em integração de CRMs — absorvendo 100 clientes americanos de uma vez. Hoje, metade dos novos contratos vem dos EUA. O Brasil segue como principal base no estoque, mas o breakeven ainda não chegou.
Para bancar a travessia, a Digibee captou US$ 90 milhões com Goldman Sachs, SoftBank e Kinea entre 2021 e 2023, avaliada em US$ 250 milhões.
O que observar daqui para frente
A diáspora deixou de ser exceção e virou rota institucionalizada. Fundos brasileiros abrindo escritórios no Vale, empreendedores na segunda jornada escolhendo começar lá fora, e a entrada do Nubank nos EUA sinalizam que o fluxo deve acelerar.
Para quem investe ou empreende no Brasil, a pergunta deixa de ser “por que sair?” e passa a ser: “como acessar capital e mercado global sem perder a conexão com a origem?”. A resposta dita quem escala — e quem estagna.
