Uma viúva de 47 anos cruzou a linha de chegada descalça, com o sari arregaçado, para garantir o material escolar da filha. O prêmio? R$ 160. A imagem viralizou, mas o que ela expõe vai muito além do heroísmo materno.
O caso de Ramabai Ranveer, no estado de Maharashtra, escancara uma equação que não fecha: diplomas caros, empregos inexistentes e um Estado que transfere para as famílias o custo de uma promessa não cumprida.
O número que explica a corrida
Dados oficiais divulgados no mês passado mostram que apenas 8% dos graduados indianos conseguem vagas compatíveis com sua formação. A taxa de desemprego entre quem tem diploma universitário atinge 29,1% — nove vezes superior à de quem nunca pisou numa faculdade.
Ramabai abandonou a escola aos 13 anos. Viúva desde 2012, catou soja, grão-de-bico e cúrcuma em terras alheias, cozinhou e vendeu refeições para manter as filhas estudando. A mais nova, Arati, cursa Ciência da Computação. A mais velha, Pooja, prepara-se para o concurso policial na academia onde a mãe trabalha como cozinheira.
Ambas miram o setor público: a única rota estável para a classe média num país onde milhões investem anos e fortunas em provas que, repetidamente, vazam ou são canceladas.
Quando o sapato escorrega, tira-se o sapato
A filha mais velha avisou: havia uma corrida de 3 km com premiação em dinheiro. Ramabai não tinha tênis adequado. No meio do percurso, o calçado começou a escapar. Ela parou, tirou os dois, ajeitou o sari e venceu na categoria de 30 a 60 anos. Pooja ficou em segundo na sua faixa etária e levou R$ 102.
O total da família: R$ 262. O suficiente para livros e cadernos — não para uma mensalidade universitária.
O efeito dominó nas redes e no Judiciário
O vídeo gerou um debate polarizado. Para uns, símbolo de sacrifício materno. Para outros, atestado de vergonha nacional. A usuária Shoma Sarkar resumiu: “É um momento de glória ou de vergonha para nós como sociedade?”
A repercussão chegou ao Supremo Tribunal. O ministro Surya Kant determinou ao distrito o pagamento de R$ 2,5 mil em auxílio emergencial. Uma vitória pontual que não resolve o estrutural.
O que os especialistas dizem — e o que os dados confirmam
- Sukhadeo Thorat, ex-presidente da Comissão de Subsídios Universitários: “Se uma mãe precisa correr descalça pela educação das filhas, os programas governamentais não estão sendo implementados.”
- Protestos do Partido Popular da Barata (CJP), movimento satírico da Geração Z, derrubaram o ministro da Educação em julho.
- Escolas rurais sem banheiros femininos, merenda vencida, infraestrutura colapsada.
O vazamento do exame nacional de medicina (NEET) em maio forçou quase dois milhões de candidatos a refazer a prova. A confiança no sistema de seleção pública — a grande equalizadora prometida — está em frangalhos.
O que observar daqui para frente
O caso Ramabai não é exceção; é sintoma. Enquanto o retorno sobre investimento em educação superior tender a zero para a maioria dos graduados, e o setor público continuar como único porto seguro, veremos mais famílias apostando em soluções individuais heroicas para falhas sistêmicas.
Para investidores e formuladores de política, a lição é clara: capital humano não se forma com discursos, mas com infraestrutura, integridade nos processos seletivos e mercado de trabalho que absorva a qualificação gerada. O resto é corrida descalça.
