Um documento oficial sobre a falência do Silicon Valley Bank reacendeu uma disputa interna no Federal Reserve, colocando frente a frente a governadora Michelle Bowman e o vice-presidente de supervisão Michael Barr. O embate não é apenas burocrático: ele define como os bancos regionais serão fiscalizados nos próximos anos.
O relatório, divulgado em setembro, aponta falhas na supervisão e na regulação que permitiram ao SVB crescer sem controles adequados de risco de taxa de juros. Mas a forma como as conclusões foram apresentadas — e quem assina cada versão — revela uma fratura ideológica no coração do banco central americano.
Duas narrativas, um mesmo desastre
Bowman, indicada para supervisionar a regulação comunitária, assina uma dissidência de 17 páginas. Ela argumenta que o relatório final suaviza a responsabilidade da própria supervisão do Fed, focando excessivamente nas falhas de gestão do banco. Para ela, o documento evita questionar se as regras atuais — muitas desenhadas sob a gestão de Barr — são suficientes.
Barr, que liderou a revisão interna, defende que o quadro regulatório funcionaria se aplicado com rigor. Sua versão destaca que o SVB ignorou alertas repetidos sobre concentração de depósitos não segurados e descasamento de duration na carteira de títulos. A diferença não é semântica: ela dita se a resposta será “mais regras” ou “melhor supervisão”.
O que muda para bancos com ativos entre US$ 100 bi e US$ 700 bi
Essa faixa — onde vivem instituições como First Republic, Signature e dezenas de bancos regionais — é o epicentro do debate. Hoje, eles enfrentam requisitos de capital mais brandos que os grandes bancos sistêmicos (G-SIBs), mas testes de estresse anuais.
- Regras atuais: Ratio de capital Tier 1 mínimo de 7% + buffer de conservação de 2,5%
- Teste de estresse: Cenário “severamente adverso” do Fed (CCAR/DFAST)
- Liquidez: LCR (Liquidity Coverage Ratio) simplificado para não-G-SIBs
Se a visão de Bowman prevalecer, o Fed pode endurecer a supervisão intraday e exigir métricas de risco de taxa de juros em tempo real — sem necessariamente mudar a lei. Se Barr vencer, a aposta será em “aplicação rigorosa do arcabouço existente”, com mais examinadores e penalidades mais rápidas.
O número que ninguém destaca
O relatório revela que, em março de 2023, o SVB tinha 93,8% dos depósitos não segurados — o maior percentual entre todos os bancos americanos com ativos acima de US$ 50 bilhões. A média do setor era 48%. Esse dado, buried no apêndice técnico, explica por que a corrida bancária foi fulminante: não havia “cola” de depositantes protegidos pelo FDIC.
Além disso, a carteira de títulos “held-to-maturity” acumulava perdas não realizadas de US$ 15,1 bilhões no fim de 2022, equivalentes a 94% do capital Tier 1 do banco. A regra contábil permitia que essas perdas ficassem fora do balanço regulatório até a venda forçada.
Por que o timing importa agora
O relatório sai enquanto o Fed debate a implementação final do Basel III Endgame — a versão americana das regras globais de capital. A proposta original, de julho de 2023, elevava requisitos para bancos acima de US$ 100 bi em até 19%. Após lobby intenso, o Fed sinalizou em maio de 2024 que recalibraria a regra.
A disputa Bowman vs. Barr pode definir o calibre desse recalibre. Bowman vota no board; Barr comanda a equipe técnica que escreve a regra. O impasse já atrasou a finalização em pelo menos dois trimestres, segundo fontes próximas às negociações.
O que observar daqui para frente
Três marcos dirão quem leva a melhor: (1) a versão final do Basel III Endgame, esperada para o primeiro semestre de 2025; (2) a nomeação do próximo vice-presidente de supervisão — o mandato de Barr termina em 2026; (3) os discursos de Bowman nas próximas reuniões do FOMC, onde ela tem usado a tribuna para defender “supervisão proporcional, não prescritiva”.
Para quem opera crédito, tesouraria ou compliance em bancos médios, a leitura atenta das atas de supervisão (SR letters) dos próximos 12 meses vale mais que qualquer comunicado de imprensa. É ali que a “briga de família” vira exigência concreta de capital, liquidez e governança.
