Tecnologia

Eventos presenciais viram refúgio contra ansiedade da IA, diz fundador da Nuts

Rodrigo Martins, fundador da Agência Nuts, em evento presencial destacando conexão humana contra ansiedade da IA
Fundador da Nuts revela como eventos presenciais combatem a ansiedade da IA e fortalecem laços humanos irreplicáveis por telas.

Rodrigo Martins, sócio-fundador da Agência Nuts, afirma que experiências ao vivo funcionam como antídoto para a angústia provocada pela inteligência artificial. O empresário chegou a temer um novo ciclo de crise após a pandemia, mas mudou de visão ao perceber que o desconforto do presencial cria laços que nenhuma tela consegue replicar. O que ele descobriu pode mudar como sua empresa investe em conexão humana.

O medo que veio depois da pandemia

A Agência Nuts, especializada em experiências de marca, enfrentou paralisação total dos eventos corporativos em 2020. A recuperação veio, mas o avanço acelerado da IA trouxe nova incerteza: ferramentas generativas passaram a entregar planejamentos, roteiros e peças visuais em segundos. Martins admite que pensou: “vamos passar por outro momento péssimo”.

O ponto de virada aconteceu durante um evento em formato de arena. O palestrante Arthur Igreja estava no centro, com projeções nas paredes e o público ao redor. Ao falar de tecnologia, Igreja interrompeu a si mesmo e perguntou: “Vocês entenderam o formato disso aqui? Tô eu no meio, vocês em volta, contando história… só falta uma fogueira”.

Por que a fogueira importa mais que o algoritmo

A metáfora caiu como ficha. Martins percebeu que o valor do evento não está no conteúdo — que a IA já resume — mas no ritual compartilhado. Estar fisicamente exposto, improvisar, errar na frente de outros: esse desconforto gera confiança. “Você coloca seu ego ali pra todo mundo te assistir. Cria relações que nenhuma campanha criaria”, resume.

Dados do setor corroboram a tese. Segundo a UBRAFE, o mercado de feiras e eventos corporativos no Brasil movimentou R$ 12,3 bilhões no primeiro semestre de 2024, alta de 18% sobre 2023. A procura por formatos imersivos — onde o público participa ativamente — cresceu 34% no mesmo período.

O que a imperfeição entrega que a perfeição digital não entrega

A IA oferece conforto, velocidade, respostas polidas. O ao vivo oferece ruído, silêncio constrangedor, risada espontânea, mão suada no microfone. São essas “falhas” que fixam a memória. Martins cita três elementos que tornam a experiência presencial irreplicável:

  • Vulnerabilidade real: não há botão “regenerar resposta” quando alguém discorda na sua cara.
  • Sincronia corporal: microexpressões, postura, energia da sala — perdidos em videochamadas.
  • Risco compartilhado: todos ali sabem que algo pode dar errado. Isso alinha expectativas e cria cumplicidade.

Variedade como estratégia de retenção

Martins destaca outro fator: a diversidade de setores atendidos. Num mês, a agência cria imersão para farmacêutica; no seguinte, festival para marca de bebidas; depois, convenção de varejo. “Não dá tempo de cansar. Cada projeto exige reaprender a linguagem do cliente”. Essa rotação mantém a equipe afiada e reduz dependência de um único vertical.

Para o empresário, o cenário desenha dois caminhos para marcas: ou investem em conteúdo perfeito gerado por IA — e competem no mesmo nível de todos — ou apostam no imperfeito, humano, presencial. O segundo caminho cobra mais caro, escala menos, mas diferencia.

O que observar nos próximos trimestres

O movimento não é modismo. Grandes players já redirecionam verbas de mídia paga para experiências próprias. Acompanhe: crescimento de eventos “owner” (marca como anfitriã, não patrocinadora), formatos híbridos com participação ativa remota e métricas de engajamento pós-evento substituindo contagem de leads. Quem tratar presença como custo, não ativo, fica para trás.