Economia

O segredo que a Saint-Gobain descobriu para acabar com a falta de mão de obra na construção

Trabalhadores em canteiro de obra de construção seca com placas de gesso, capacetes e ferramentas modernas
Qualificação em construção seca: a aposta da Saint-Gobain para preencher 3 milhões de vagas no setor

A Saint-Gobain aposta na qualificação em construção seca para destravar um gargalo de 3 milhões de vagas formais no setor. A estratégia mira transformar a renda média de dois salários mínimos em algo muito maior. Mas o caminho exige quebrar três barreiras culturais profundas.

Por que jovem não quer mais trabalhar na obra tradicional

O primeiro obstáculo é físico. A construção convencional exige esforço intenso em ambientes insalubres. Para uma geração que pode ganhar no transporte por aplicativo sem carregar tijolo ou respirar poeira, a escolha é óbvia. O diretor de RH Gustavo Siqueira resume: o modelo antigo perdeu atratividade.

O segundo fator é invisível: o Brasil desconhece a construção leve. O país consome 1 metro quadrado de gesso por habitante. Nos Estados Unidos, são 12. França e Japão usam 10 vezes mais que nós. O drywall não é novidade lá fora — aqui, ainda é exceção.

O terceiro ponto fecha o ciclo: a informalidade dispensa qualificação. Sem certificado, o teto salarial fica baixo. Quem não estuda, não sobe.

A aposta que pode mudar o jogo

A empresa ampliou a parceria com o Senai — ativa desde 2005 — e lançou a plataforma digital gratuita Parceiro Saint-Gobain. A meta: capacitar 2.500 profissionais por ano. Dois programas ganham destaque:

  • Placo Ensina: foco em instalação de sistemas de drywall e forros
  • Reforma: formação exclusiva para mulheres montadoras de drywall

A lógica é direta: construção leve exige mais técnica e paga melhor. Quem se qualifica, aumenta o próprio “ticket” no mercado.

O que os números revelam sobre o potencial

Se o Brasil alcançasse o consumo per capita de gesso dos EUA, o mercado interno multiplicaria por 12. Isso significa obra mais rápida, menos desperdício, menos esforço físico — e remuneração compatível com a especialização. A equação fecha para o trabalhador, para a construtora e para a indústria.

Mas a transição não acontece por decreto. Exige que o profissional tradicional aceite reaprender. Que a mulher entre num ambiente historicamente masculino. Que o informal busque certificação.

O que observar daqui para frente

O termômetro real será a adesão à plataforma gratuita e a conversão dos formados em vagas formais com salários acima da média setorial. Se 2.500 profissionais por ano migrarem da alvenaria para o drywall com carteira assinada e renda superior a três salários mínimos, o modelo prova que funciona. Caso contrário, o gargalo continua — só que com mais gente qualificada fora do mercado.