Economia

Rappi aposta R$ 1,4 bi no “superapp de 10 minutos” e ignora guerra de cupons com iFood

CEO da Rappi Guillermo Formigoni apresentando estratégia de superapp com entrega em 10 minutos e investimento de R$ 1,4 bi
Rappi investe R$ 1,4 bi em logística ultrarrápida para virar varejo digital além do delivery de comida.

Guillermo Formigoni, CEO da Rappi no Brasil, traçou uma linha clara: a empresa não vai queimar caixa em descontos para disputar o delivery de comida. O foco agora é transformar o aplicativo em um varejo digital capaz de entregar de banana a videogame em até dez minutos. O movimento exige R$ 1,4 bilhão em cinco anos, direcionados quase inteiramente a tecnologia e logística ultrarrápida.

Por que o delivery de restaurante virou “apenas 10%” do negócio

Formigoni revelou que restaurantes respondem por cerca de 10% da operação da Rappi hoje. Os outros 90% vêm de supermercado, farmácia, pet shop e, principalmente, do Rappi Turbo — o braço de quick commerce que usa dark stores para cumprir a promessa de entrega em minutos.

Enquanto iFood, 99Food e Keeta travam uma “guerra multipolar” por cupons e exclusividade com restaurantes, a Rappi aposta que o consumidor quer conveniência ampla, não só jantar. O mercado valida a tese: o varejo alimentar latino-americano move US$ 500 bilhões (R$ 2,6 trilhões), contra US$ 210 bi do food delivery. O Brasil sozinho responde por 60% desse bolo.

A engenharia por trás dos 10 minutos

O segredo não é mágica — é densidade logística. A Rappi opera 40 dark stores no país: 21 em São Paulo e 19 distribuídas entre Fortaleza, Recife, Belo Horizonte, Curitiba, Rio de Janeiro e Porto Alegre. Cada unidade estoca cerca de 5.000 SKUs (contra 20 mil de um supermercado tradicional) e tem pickers treinados para separar o pedido em dois minutos e meio.

  • Parceria com Amazon: Kindle e eletrônicos já entram no mix
  • Expansão de sortimento: computadores e videogames são os próximos alvos
  • Modelo futuro: marketplace aberto para varejistas terceiros

As lojas escuras também funcionam como pontos de apoio para entregadores — tratados pela empresa como “clientes que precisam ser conquistados”.

O nó regulatório dos entregadores e a escala 6×1

Formigoni admite que a regulamentação do trabalho por aplicativo ainda carece de clareza. Defende uma “evolução do modelo” que concilie flexibilidade com proteção previdenciária e contra acidentes, mas nega controle algorítmico punitivo: “é um sistema de inteligência artificial”, diz. Sobre o modelo europeu de operador logístico, classifica como evolução, mas sem posição firme.

No front trabalhista, o CEO classifica a eventual mudança da escala 6×1 como “involução do modelo”. A Rappi tem cerca de mil funcionários CLT no Brasil e opera 24/7. Para Formigoni, a alteração impactaria preços e operação de forma relevante.

Cade, cláusulas de exclusividade e a estratégia de “esperar para ver”

O Conselho Administrativo de Defesa Econômica analisa cláusulas da 99Food que oferecem investimento inicial a restaurantes em troca de não firmarem contratos com concorrentes. A Keeta chama de “cláusulas de banimento”; a 99 prefere “semiexclusividade”. A postura da Rappi: “aceitar o que sair de lá e focar na experiência do usuário”.

Formigoni reconhece concorrência acirrada, mas evita classificar como injusta. O discurso reforça a tese de que a melhor defesa não é judicial — é operacional.

O que observar daqui para frente

Três variáveis definem se a aposta se sustenta:

  • Taxa de conversão do Turbo: o modelo só escala se a frequência de compra compensar o custo da dark store
  • Regulamentação dos entregadores: qualquer definição no Congresso ou no STF altera a estrutura de custos
  • Entrada de grandes varejistas no quick commerce: Magazine Luiza, Mercado Livre e Amazon Brasil já testam entregas rápidas

A Rappi cresce “a dois dígitos altos” e descarta serviços financeiros no Brasil nos próximos 18 meses — nada de RappiBank por aqui, por ora. O termômetro real será a capacidade de manter a promessa dos 10 minutos quando o sortimento incluir itens de alto valor e baixa rotação, como consoles e notebooks. Se o consumidor adotar o hábito, a guerra de cupons vira nota de rodapé.