Produtores gaúchos não conseguem comprar diesel nas quantidades necessárias para iniciar o plantio de arroz e preparar a soja, com o litro do S-10 chegando a R$ 6,90 no interior do estado. A escassez atinge justamente a janela crítica de semeadura, encurtada pelas chuvas do El Niño.
O relato parte de quem está no campo. Fernando Rechsteiner, diretor da Farsul e produtor em Pelotas, tentou abastecer esta semana e ouviu do fornecedor que não havia S-500 disponível — o diesel mais barato e poluente — enquanto o S-10 disparava. A Federação já acionou ANP e Ministério de Minas e Energia.
O que está por trás da falta de combustível
O mercado identifica três vetores convergentes. O primeiro é geopolítico: a escalada de conflitos no Oriente Médio e os ataques ucranianos a refinarias russas cortaram fluxos de importação que abasteciam o Brasil. O segundo é econômico: a Petrobras mantém o preço de refinaria congelado desde junho, criando uma defasagem de R$ 3,49 por litro frente à paridade de importação calculada pela Abicom. O terceiro é estrutural: clientes do mercado de curto prazo, que compram de TRRs (transportadores-revendedores retalhistas), ficam expostos à volatilidade quando importadores privados reduzem compras por falta de rentabilidade.
Quem sente o impacto imediato
- Arrozeiros: plantio iniciado agora, janela estreita por causa das chuvas acima da média
- Sojeiros: preparo de solo para semeadura em outubro
- Pequenos e médios produtores: sem contratos diretos com grandes distribuidoras ou Petrobras
Segundo a Abicom, setembro tem volumes contratados para cobrir o consumo, mas outubro preocupa: apenas 10% das necessidades de importação estão fechadas. A expectativa do setor gira em torno da regulamentação da subvenção de R$ 1 por litro anunciada pelo governo, que pode tornar viável a importação privada.
O que dizem os agentes oficiais
A ANP afirma que não há desabastecimento configurado em nenhuma região e que os estoques variam naturalmente. A Petrobras, em nota, garante que entregas seguem o planejado e que importações para setembro e outubro estão programadas considerando a sazonalidade. A Farsul, por sua vez, relata que pedidos vêm sendo negados por fornecedores desde a semana passada, além da alta de preços generalizada no interior.
O que observar nas próximas semanas
A definição sobre a subvenção ao diesel deve ditar o ritmo das importações de outubro. Se a regra não sair a tempo, o mercado de curto prazo — onde estão a maioria dos produtores rurais — tende a enfrentar novo aperto justamente no pico da semeadura da soja. Outro ponto de atenção: a Petrobras não reajusta o diesel há quase quatro meses, enquanto o barril opera acima de US$ 100. Qualquer movimento da estatal, para cima ou para baixo, reconfigura instantaneamente a equação de abastecimento no Sul.
