Educação

Você não vai acreditar: minifloresta escolar vira finalista de prêmio nacional…

Estudantes cuidando de minifloresta no Colégio Estadual Professor Joaquim Carvalho Ferreira em Goiânia
Minifloresta plantada por 70 alunos transforma microclima escolar e concorre a prêmio nacional de educação.

Uma professora de geografia de Goiânia está entre os 12 finalistas do maior prêmio da Educação Básica do Brasil com um projeto que nasceu de uma pergunta simples: como tornar a escola mais fresca? A resposta — uma minifloresta plantada e cuidada por 70 estudantes — transformou o microclima do colégio e a relação dos jovens com o espaço onde passam o dia inteiro.

O reconhecimento coloca o Colégio Estadual Professor Joaquim Carvalho Ferreira no radar nacional, mas a história real acontece no solo arenoso de um pátio que, há dois anos, não oferecia sombra nem conforto térmico.

Da sala de aula para o microclima: como tudo começou

Tudo começou em uma aula sobre domínios morfoclimáticos. A professora Lazelane Ferreira da Silva propôs que os alunos pensassem alternativas para melhorar o ambiente escolar, localizado em região urbana com pouca arborização. Surgiram ideias como ar-condicionado e plantio de árvores. O custo dos equipamentos vetou a primeira opção.

Com aval da direção, uma área degradada recebeu as primeiras cinco mudas: dois ipês, uma pata-de-vaca, um jacarandá-mimoso e um pé de limão trazido por um aluno. O que era para ser uma atividade pontual virou rotina de pesquisa, monitoramento de crescimento e cuidado coletivo.

A parceria com a então doutoranda Izabelle Chaves, da UFG, deu rigor científico ao processo. Os estudantes passaram a coletar dados, relacionar variáveis climáticas e entender, na prática, conceitos como ilhas de calor, conforto térmico e cobertura vegetal.

O impacto direto no rendimento e no pertencimento

Segundo a docente, a mudança mais visível não está nas copas ainda pequenas — está no comportamento. Turmas que antes ignoravam o pátio passaram a zelar pelo espaço. Relatos de alunos com familiares que estudaram na mesma escola revelaram uma camada afetiva inesperada: as árvores eram vistas como legado para as próximas gerações.

Outros estudantes trouxeram saberes de férias trabalhando com a terra, manuseio de ferramentas e identificação de espécies. Esse conhecimento prévio, geralmente invisível no currículo formal, ganhou protagonismo e despertou a curiosidade dos colegas.

  • 70 estudantes envolvidos diretamente em quase dois anos de projeto
  • 5 mudas iniciais — hoje em monitoramento contínuo de crescimento e impacto no solo
  • Redução sensível na temperatura percebida na área plantada, mesmo com árvores jovens

Para a professora, o rendimento escolar nos meses de estiagem — quando o calor torna as salas quase inabitáveis — é um dos indicadores mais concretos do valor da iniciativa.

Quando o currículo encontra a realidade: laboratório vivo

A minifloresta deixou de ser “projeto da turma da Lazelane” e virou recurso da escola inteira. Outras turmas visitam o local para aulas de geografia, biologia e até iniciação científica. A colega Nilza já planeja atividades de inventário arbóreo e identificação botânica com seus alunos.

Esse efeito cascata — uma experiência piloto que inspira práticas pedagógicas em outras disciplinas — é o que diferencia iniciativas sustentáveis de ações isoladas. O espaço passou a ser citado em planejamentos coletivos e discussões sobre gestão do ambiente escolar.

A expansão silenciosa: outros professores, novas pesquisas

O interesse de docentes de diferentes áreas sinaliza algo raro: apropriação genuína. Não houve determinação hierárquica; a utilidade pedagógica falou mais alto. A área, antes ociosa, entrou no mapa mental da comunidade escolar como lugar de aprender e conviver.

Lazelane destaca que o objetivo agora é consolidar o espaço como permanente. A ideia é que sirva tanto para atividades formais quanto para o simples convívio com a natureza — algo cada vez mais escasso na rotina urbana de adolescentes.

O que está em jogo na premiação de novembro

A 28ª edição do Prêmio Educador Nota 10, realizada pelo Instituto Somos em parceria com o Ministério da Cultura, selecionou nove professores e três gestores de todo o país. Os projetos finalistas dialogam com os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU.

A cerimônia acontece em 10 de novembro, na Pinacoteca de São Paulo. Os três primeiros colocados de cada categoria recebem, respectivamente, R$ 25 mil, R$ 20 mil e R$ 15 mil, além de bolsa de pós-graduação no Singularidades e acesso a plataformas de formação continuada.

O grande vencedor — o Educador do Ano — garante mais R$ 25 mil destinados à escola do projeto vencedor, para investimento em produtos ou serviços.

O que observar daqui para frente

Independentemente do resultado em novembro, o caso de Goiânia já oferece um roteiro replicável: baixo custo, alto engajamento, currículo integrado e impacto mensurável no bem-estar escolar. Gestores públicos e privados que buscam estratégias de adaptação climática em ambientes educacionais têm aqui um modelo testado — e validado pelos próprios alunos.

Vale acompanhar se a visibilidade do prêmio catalisará editais, parcerias universitárias ou políticas de arborização escolar em escala. A minifloresta do Joaquim Carvalho Ferreira pode ser apenas a semente de algo muito maior.