Economia

Guerra, tarifas e IA: a tempestade perfeita que explode custos da indústria dos EUA

A indústria americana encara uma nova onda inflacionária na cadeia de suprimentos, impulsionada por três forças simultâneas: o conflito no Irã disparando energia, tarifas encarecendo importações e a corrida por chips de IA secando componentes eletrônicos. O resultado aparece no balanço das fábricas: custos de insumos subindo a taxas de dois dígitos e preços repassados ao consumidor.

“Precisamos gastar cada vez mais para comprar as mesmas coisas”, resume Julie Robbins, à frente da EarthQuaker Devices, fabricante de pedais de guitarra em Ohio. A empresa já elevou preços duas vezes apenas em 2026.

O choque triplo que ninguém previu

Dados do ISM (Instituto para Gestão da Oferta) de agosto revelam: mais de uma dúzia de setores industriais relataram alta em matérias-primas. Nenhum registrou queda. O índice geral de preços acumula 23 meses consecutivos de aumentos.

Nos bastidores, a pressão é assimétrica. Enquanto produtos acabados subiram 6,6% em agosto na comparação anual, bens intermediários processados avançaram 11,5% — puxados pelo diesel. Matérias-primas brutas, como sucata metálica, saltaram 12,8%.

Diesel recorde e frete 16% mais caro

O combustível não para de subir. Na segunda-feira (14), o diesel nas bombas bateu US$ 6,23 por galão — recorde histórico, segundo a AAA. O reflexo imediato: o custo médio por remessa de carga disparou 16% em agosto ante igual mês de 2025, com base em dados da Cass Information Systems.

Traci Tapani, copresidente da Wyoming Machine (peças metálicas em Minnesota), confirma: “Enfrentamos interrupções na obtenção de matérias-primas. Aço, em particular, tem problemas perceptíveis de oferta.”

Da escassez ao custo: a nova lógica das cadeias

Executivos diferenciam o momento atual da crise da Covid. Antes, faltava produto. Hoje, o produto existe — mas o preço inviabiliza margens. “Passamos da escassez para o custo como principal preocupação”, define Kip Eideberg, da Association of Equipment Manufacturers.

O setor eletrônico, porém, vive os dois dramas. A expansão vertiginosa de data centers de IA criou demanda “em todos os lugares ao mesmo tempo”, diz Shawn DuBravac, da Global Electronics Association. Prazos de entrega de vários anos viraram rotina para chips de memória e processadores especializados.

  • Dois terços dos fabricantes globais de eletrônicos reportam componentes limitados ou prazos alongados (pesquisa GEA, julho/2026)
  • Cadeia eletrônica passa por crise “maior e mais complexa que a pós-Covid”, segundo participante da pesquisa ISM
  • Solução exige expandir produção em toda a cadeia ou reduzir demanda por infraestrutura de IA

O paralisia dos investimentos

Apesar da alta de preços, grandes aportes para ampliar capacidade não chegam. Incertezas — guerra no Irã, tarifas voláteis, ritmo da IA — travam decisões de capital. “Nenhuma empresa faz grande investimento sem certeza de como será o mercado daqui a um ano”, explica Zac Rogers, professor de cadeia de suprimentos na Universidade Estadual do Colorado.

Robbins, da EarthQuaker, resume o dilema do empresário médio: “Mudanças constantes tornam impossível desenvolver plano de longo prazo. Você depende de estabilidade e clareza — e isso não está acontecendo agora.”

O que observar nas próximas semanas

O rendimento do Treasury de 10 anos tocou 5% pela primeira vez desde 2023, e apostas no mercado dão como certa alta de juros pelo Fed na quarta-feira (16). Três variáveis ditam o rumo: desfecho do conflito no Irã (impacto direto no petróleo), eventual negociação tarifária e velocidade de expansão da infraestrutura de IA. Quem depende de insumos importados ou componentes eletrônicos deve preparar cenários de custo para 12 a 18 meses — a volatilidade veio para ficar.